quinta-feira, 7 de julho de 2011

Madrid II- el gato que tiene siete vidas

Há um cheiro que caracteriza as várias linhas de metro de Madrid. As pessoas, essas, têm aquelas expressoes rotineiras de regresso a casa depois de mais um dia de trabalho.
Há um senhor que toca violino em Argüelles. Tiro os phones dos ouvidos por respeito ou por algo no seu olhar que me faz querer ouvi-lo.
Por vezes desafina, mas vale a pena. Alguém importante me disse que quando somos imperfeitos, somos inteiros... mas quando somos perfeitos nao somos humanos sequer!
Vejo um anúncio a uma peça de teatro "el gato que tiene siete vidas"... y yo ? Cuantas tengo?
É que acho que já "morri" e voltei a viver várias vezes...

Madrid I- en el cine

Deitada sobre a água fria daquele dia quente, podia ver os pássaros que voavam sobre si. Cada momento passado naquele pedaço de tempo só seu, cheirava imensamente a uma liberdade que sem saber como, tinha alcançado. Era aquela liberdade que nos permite sermos nós e descobrirmos uma faceta nossa que nao conhecíamos antes.
Percorria sozinha uma cidade desconhecida e partir tinha sido o melhor para aquele momento da sua vida em que se encontrava entorpecida por um gostar nao correspondido e infantil...
Ali, onde as memórias chegavam devagar, pedia apenas para permanecer naquele momento mais tempo, deitada por cima da água cristalina, a ver os pássaros que voavam acima de si. E que mais estava acima de si naquele momento ?

Música- Los peces - Llasa de sella

segunda-feira, 20 de junho de 2011

rambling man

As nuvens corriam pelo céu cinzento a um ritmo frenético. O fluxo da cidade movimentava-se de um lado para o outro. As pessoas apressadas para chegar aos seus destinos fossem eles quais fossem.
De súbito, paro, cansada entre a multidão que na sua lufa-lufa se desloca em todas as direcções. Logo de seguida me sinto apunhalada, ferida por um olhar sem fim nem principio que se cruza com o meu.
Está a pedir-me qualquer coisa, talvez apenas uma palavra. Mas hoje, não sou capaz de a dar. Fiquei petrificada como se dentro de mim as emoções fervilhassem mas não fossem capazes de sair. A respiração estava ofegante e a alma confusa.
As suas mãos miseráveis giram em cada caixote do lixo, em busca da próxima refeição. Mas aquele olhar decadente penetra-me as entranhas, percorre cada bancada da minha alma em busca de um lugar confortável onde se sentar. E senta-se. Fala comigo aquele olhar. Por vezes diz frases com sentido, outras apenas diz palavras-chave como se as lançasse ao vento.
Diz-me que não siga aquele caminho, porque é uma estrada sem retorno em curva vertiginosa permanente.
Alguns, pela velocidade que experimentam, deixam que aquela curva acabe com as suas vidas… outros vão sobrevivendo ali, naquele ninho de decadência e tristeza.
A multidão apressa-se para o seu destino.
Mas há ali alguém que não tem destino.
Quero desligar-me daquele olhar, mas não consigo. Está demasiado perdido, demasiado sozinho. Encurralado numa prisão onde ele próprio se fechou.
Precisa de uma palavra, mas eu não a tenho.
Talvez porque me reconheço naquele olhar e nunca ninguém me ofereceu uma palavra em troca.
Hoje, a vida acolhe-me como um abraço perfeito. Mas os braços da vida, não são infinitos. Não conseguem abarcar todos…
“- Não é assim, Margarida”- oiço - “ Cada um constrói o seu caminho”.
Aquele olhar está perdido, mas sabe o que diz àqueles que passam, e que ainda apressados, conseguem olhar para os outros e ver mais fundo, onde o simples “ver com os olhos” não chega.
Gostava de poder escrever um fim para esta triste história. Mas hoje, depois de ver o fim de um caminho com os próprios olhos, percebo que cada um escreve a sua. É doloroso, mas é a vida. E a vida às vezes custa.
Por vezes parece mais fácil fugir, não viver entre quatro paredes que nos aprisionam e que absorvem as memórias como líquenes colados às árvores. Mas eu já aprendi que quando fugimos, há um certo momento em que tudo aquilo de que fugimos nos apanha de frente. Por vezes desprevenidos, quase sempre em modo avalanche, prestes a levar tudo à sua frente formando uma bola cada vez mais enorme. Aprendi também que para os “sismos emocionais” não há medidas de minimização de estragos. Muitas vezes eles vêm e tornam-se permanentes, levando a mais catástrofes e sucessivamente mais e mais problemas.
Não lhe dou palavras, mas dou-lhe um sorriso.
O sorriso que ele não tem, por ter perdido parte de si, parte da sua vida, do seu caminho.

domingo, 12 de junho de 2011

e amanhã ?

Gostava de ter novas palavras para preencher este hoje que chega ao fim.
Novos momentos que se empilhariam num puzzle ainda por terminar.
Mas tenho a minha confortável rotina, que me abraça numa dança ritmada.
Tenho novos horizontes que esperam por mim, lá longe...
E uma música que não me sai da cabeça!
Espero um amanhã que chega devagar, preguiçoso.
Carrego ás costas uma mochila repleta de palavras, memórias e sonhos,
e de coisas que ficaram por dizer.
Gostava de tas dizer hoje, ao ouvido.
Os sentidos para a caminhada, tenho-os no coração.
E amigos a encherem-me a alma de carinho!
Queria ter os cabelos salgados,
da água do mar imensa,
que já não me puxa nas suas correntes,
mas me faz ficar mais forte
a nadar contra elas !
Será que amanhã vou saír
e deixar-te sozinho, deitado, humilhado
entre os papéis que escrevemos ?
Não, amanhã não saírei,
porque não entrarei no teu jogo
no qual pensas saír vencedor.
"Chama-me boneca, mas não brinques comigo"
É o que dizem.
Eu não quero que me chames nada,
só Margarida,
que é o meu nome.
E que troques palavras novas para este dia
que chega.
Partilhas comigo o hoje...
E amanhã ?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Busca

Quiseste te soltar, Num fraco brilho tímido Em vontade no tempo húmido, Mas o mal não para de voltar. É chover ou não chover. Da multidão apressada Perdes-te no fluxo E o teu braço eu puxo, Mas continuas calada E agora chove sobre nós. Enches com lágrimas uma colher, Confunde-los com esta tempestade Num mundo de tão pouca bondade, Numa ânsia incansável de poder. São as lágrimas dos anjos! Absorves a chuva em ti; A água escorre-te pelo coração E agora pelos olhos sem razão. Porque já não chove aqui, Já podes dançar. Filha querida dança à vontade, Deixa cair despreocupada a sombrinha, Fica feliz, é o regresso da andorinha. Nós te contemplamos em humildade. É brilhar ou não brilhar! Charles James Bass and Daisy Wedge

quinta-feira, 31 de março de 2011

sonho

Mal acordei o céu pintou-se de um tom púrpura intenso. Das pétalas das flores saíram bolas de fumo coloridas, que encheram a atmosfera de luz e cor. Ao longe, vi-te a ti com um sorriso pronto para me receber. Cada vez mais perto de mim, trocas um beijo suave, ténue comigo. Entrelaçamos as mãos, e num abraço profundo, caminhamos lado a lado. O caminho que se encontra à minha frente, não parece tão duro. O peso que carrego de memórias e saudades, não custa tanto a levar, porque é agora partilhado. Uma música bonita enche-nos agora os ouvidos de sentido. O ritmo dos nossos passos é compassado com o da música que se ergue sobre nós. De repente, a luz entra-me pelos olhos com uma força incontornável. Era dia, e mais um esperava-me. Mas tu...não estavas lá mais.

vives em mim

Mais um dia igual a tantos outros. Mais horas para viver na angústia de um adeus forçado, um adeus para sempre. Tal qual um autómato, vesti-me para sair. Chovia, lá fora. Cá dentro, também. Já na rua, passei o meu olhar pela cidade, que já tinha despertado de um sono profundo. Tu não. Já não te podia sentir, perfeita, a passear no teu passo miúdo pela cidade. Já não podia olhar-te nos olhos e dizer-te um "amo-te" profundo e sincero. Simplesmente não estavas. Tinhas desvanecido como o nevoeiro da manhã, para trazer um dia de Sol. Mas os dias que me trouxeste não foram de Sol, mas sim de chuva. Chuva que se entranha dentro de mim, do meu coração. O fluxo da multidão andava no sentido contrário ao meu. Eu buscava apenas o teu sorriso alinhado ao meu, eu buscava apenas mais um dia que me deixasse absorver todos os momentos que se incrustram na memória. Já não vives no Mundo onde a violência é gratuita, onde o olhar é cinzento e desprovido de cor. Onde as pessoas deixam as outras caír e os sonhos são ditos demasiado baixo para serem ouvidos. Debaixo da terra, onde a luz não chega... mas sinto-te tão perto de mim. Quase que oiço o teu coração pulsar sobre o meu, ao mesmo ritmo, uníssono. Deixo-me agora atirar ao chão, como as últimas palavras que trocámos. Percebo hoje que não são as últimas, mas as primeiras de todas. A multidão apressada desvaneceu-se. Só estamos naquela rua tu e eu. Vestes um vestido branco, da cor de uma madrugada que se apressou a chegar. Dás-me a tua mão. No instante em que estas se tocam um sopro agudo percorre-me o corpo. Estás cada vez mais perto. E tão longe. Dançamos à chuva uma dança quase sem fim. Os pés entrelaçam-se no chão a um ritmo compassado. As cartas que trocámos gritam-me agora aos ouvidos as palavras que dissemos um ao outro. Palavras bonitas que me preenchem e a ti também. A chuva é cada vez mais torrencial e intensa. Abraço-te com toda a minha força. Progressivamente, deixo de sentir o teu corpo. Não te vejo mais. Onde estás ? A resposta a esta pergunta só chegou hoje, um ano depois de tudo o que aconteceu. Estás aqui. Comigo. Vives em mim.

combóio

ante pé, caminhava escondida, naquele lugar que não era o meu. Peúgas no chão, espalhadas. Bocados de papel atirados ao chão, deixados caír. A paisagem, essa, ia-se alterando à medida que o combóio se aproximava do seu destino. Estava à procura de algo, mas não sei bem do quê. Talvez de um espaço diferente, que me preenchesse um bocadinho mais do que o meu. Algo que me arrancasse daquele ciclo, em que uma mão gigante e amarela me colocou. Antes de ali estar, caminhava dentro de uma casa onde chovia. Havia dias em que a chuva miudinha e irritante me entrava por dentro da roupa e me causava arrepios gélidos. Outros em que o Sol brilhava. Estava sempre à espera da nova tempestade. Ali, estava em mudança constante, a observar uma paisagem familiar, memorizada. Procurei depois, pedaços de ti em mim. Aonde estão ? Não consigo encontrá-los. Tenho saudades dos teus segredos ditos ao ouvido, para que não se percam no caminho de um adeus sempre adiado. Não quero adiar mais. Quero agora. Poder fugir desta prisão invisível que me esconde do resto do mundo. Poder entrar num lugar onde os sonhos são proclamados tão alto que obrigatoriamente têm de ser ouvidos. Preciso que oiçam os meus sonhos. AGORA. As imagens fluem como gotas de chuva que precipitam sobre mim. É tudo tão estranho e simultaneamente faz tanto sentido. Toco no piano que se encontra dentro do combóio. As notas saem-me dos dedos para o ar. O som é absorvido por uma multidão que corre apressada. Ninguém dança. Mais uma vez não fui vista. Não fui ouvida. Não saí. Mas conquistei algo novo. A possibilidade de saír. De ouvir. De ver algo novo. Algo que o futuro me reserva. Algo meu. Só meu.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O piano

Ao longe, um piano que toca uma melodia inexplicável, de tão familiar que é. De tão palpável que se torna, quando os dedos percorrem as teclas numa corrida intensa.

Ao perto, uma memória em forma de fotografia pintada a preto. A branco. O meu olhar, ao passar por ela consegue colorir cada espaço deixado sem cor pelo tempo, cor que agora volta potenciada pela saudade.

O tempo escasseia, corre apressado, mas a memória permanece intacta, silenciosa e quieta. À espera de ser novamente tocada, beijada.

Hoje olho para ti, memória. Olho-te nos olhos e percebo que temos muito para dizer uma à outra. Tenho que te dizer que a saudade que sinto de ti, é a mesma que me permite apertar-te contra o peito e seguir caminho, deixando-te novamente quieta e silenciosa.

As teclas, essas, vão sendo pressionadas com a mesma intensidade com que me vejo obrigada a deixar-te para trás, memória. A partir do momento em que foste vivida, passaste a ser logo isso: uma mera memória, que volta às vezes para me reencontrar agora num caminho diferente, renovado.

Acho que não tenho mais nada a dizer-te. Olhar para ti traz-me um conforto enorme, conforto de não estar mais aí, contigo a viver-te. É a mesma sensação de estar a olhar a chuva, protegida no conforto de uma casa, onde às vezes também chove.

Mas por agora o tempo está ameno, estamos cá só nós duas. E o piano.

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sábado, 19 de março de 2011

humpty dumpty



Ao lume, está uma chaleira, cuja água a ferver está pronta para um belo chá.
É um chá doce e ao mesmo tempo amargo, quente e ao mesmo tempo gelado pelas recordações e história que encerra.
Da mesma forma, um misto de sentimentos me invade… Uma profunda tristeza, salpicada de uma raiva quase avassaladora.
Algumas descobertas inesperadas, formam a receita para um lanche fora de horas.
De manhã, bebo o chá já frio e absorvo com ele todos os pedaços partidos do bule em forma de coração. Vou tentar colá-los, mas sei que não estarão tão fortes como antes: prontos a ser partidos mais uma vez, atirados com toda a força contra o chão.
Sou o Humpty Dumpty em cima do muro, que ao ver a vida lá de cima, de outra perspectiva, se deixa embalar na perfeição dos momentos e de repente, se deixa cair.
Agora, a tarefa é coleccionar cada pedaço partido, voltar a colá-los e esperar que não voltem a descolar. Nunca mais.
“Porquê?”- pergunto-me.
Não encontro razões. Esgotaram-se, tal como os pedaços de mim perdidos, que procuro pelo chão. Alguns deles, são agora impossíveis de recuperar, para sempre perdidos nas memórias um dia tão queridas.
Faltam-me as palavras, falta-me o sangue na guelra para continuar a escrever. Paro por momentos. E nessa pausa que agora parece tão longa, tento encontrar-me, a mim dissociada daqueles lugares tão confortáveis e que faziam tanto sentido.

quarta-feira, 9 de março de 2011

casa da praia

O burburinho do mar era constante. A força com que este se debatia contra as rochas era quase impossível de descrever.
O céu, de um laranja profundo indicava um bonito fim de tarde. Ao longe o farol, ainda com as luzes desligadas completava aquele lindo cenário.
A noite aos poucos, chegava ao local. Era a hora do recolher, todos chegavam a casa menos ela. Ela apenas se deixava permanecer, mais um segundo, mais um minuto, mais uma hora.
Sem porquês ou razões, absorvia a calma e a paz daquele momento, com a certeza de que voltar ali a faria sentir-se sempre igual. O vento fazia os seus cabelos esvoaçar a um ritmo quase tão frenético como o pensamento.
A última vez que ali estivera, estava perto do abismo. A cada dia que passava sentia-se perdida na imensidão de uma rotina sempre igual, assustadora e quase auto-destrutiva.
Esperava um São Sebastião no nevoeiro, uma breve canção que a fizesse despertar para algo novo.. Mas isso não chegava.
Procurava nos cantinhos mais recônditos da sua alma, a força, a razão para continuar, mas havia outra força contrária a puxá-la cada vez mais fundo. Estava a remar contra a maré, sem o vento a favor e com o barco destruído. Estava sozinha no mar alto, e não avistava por perto uma ilha ou um colete salva-vidas.
Quando foi àquela praia deserta e se sentou na areia, apenas pôde ver as suas imagens a sobrevoar o mar e as ondas, a pairar em frente aos seus olhos. Assistiu como num filme ao seu percurso, e já sem razão as lágrimas choviam-lhe pela cara abaixo.
" Caminha até ao mar "- ouve de súbito uma voz desvanecida.
Um pouco assustada obedece ao pedido.
Pé ante pé, com medo de tropeçar, visto que já tinha caído várias vezes, avança em direcção a um mar revolto que se debate à sua frente.
Junto à rebentação das ondas, consegue sentir a fúria ainda mais forte que grita dentro de si. "Porquê?"- pergunta a si própria.
As respostas vêm fluidas, como a água que avança para ela.
Foste como a gaivota, deixaste que o vento tomasse as tuas coisas e que a força dos ares determinasse a tua direcção.
Dançaste como as algas, ao sabor do momento, ao sabor das correntes do mar.
Quiseste ser como o polvo e abarcar todos os pequenos pedaços de vida nos teus braços.
As respostas sobrevoam agora a areia, e pode ver claramente todas as palavras das frases que ecoam no seu pensamento...
Olha agora, o seu reflexo no mar. Tem os olhos cansados, mas no seu olhar vive uma palavra: esperança.
Subitamente o farol liga-se. Ainda no meio do mar, tem agora uma luz que lhe indica o caminho. O salva-vidas , são pequenos braços amigos que se atiram sobre ela para a agarrar.
É agora o momento da decisão : o momento de saber qual o caminho a seguir.
Agarra aqueles braços, com a força com que agarra hoje a vida.
Nem sempre tem um farol que escolhe por si, qual o trajecto melhor. Mas tem uma voz, aquela que um dia lhe disse para caminhar até ao mar: a sua voz interior.
Naquela praia, descobriu pedaços de si, antes para sempre perdidos. E hoje, festeja aquele momento enquanto espera o instante em que o farol acende novamente para dar alento e esperança aos barcos que navegam em alto mar. Olha para o céu, de uma cor de lusco-fusco e sorri, porque hoje, se sente em casa.

terça-feira, 1 de março de 2011

ciclo

Como sempre, M. chegava a casa e deixava-se confortar na sua poltrona gigante, pela felicidade de uma rotina, repetida. Sempre as mesmas vozes, a mesma pose, o mesmo olhar. A gritar desesperadamente para que saísse daquele ciclo. Mas os seus ouvidos eram dois filtros, capazes de fixar especificamente aquilo que gostavam de ouvir.
Esta sua capacidade podia ser perigosa, porque mudava uma realidade pouco confortável, e até desafiante.
Alguns dias passavam e ia dizendo para si própria " hoje vai ser diferente", e nunca era.
Precisava de uma grande alteração na sua vida , de algo capaz de lhe por nos olhos lentes de optimismo.
Aquela rotina mecanizada era confortável, e fazia-a saír de uma realidade por vezes cruel e avassaladora. Por vezes demasiado dificil para ser suportável.
Para mudar, era preciso deixar uma parte de si morrer, uma parte de si que gritava bem alto e que a movia...
Quando as suas lágrimas caíam, eram absorvidas por um solo castanho, do qual saíam enormes girassois gigantes e dançantes... Esta subia-os , e do cimo deles era possível ver a sua vida a uma distância diferente. De uma perspectiva melhor, mais fácil.
Quando se sentia insegura, havia uma força, trazida pelo vento que a fazia avançar e cantar confiante, que a fazia acreditar um pouco em si.
Um dia, houve uma tempestade.
Nessa tempestade, os seus olhos choraram e dentro de si desenvolvia-se um enorme furacão.
Como em todas as catástrofes, houve destruição e morte. Perdeu a casa onde se sentava confortavelmente ao chegar, onde se deixava ficar na sua rotina espectacular.
Morreu parte de si, aquela que vivia num mundo ilusório, mas tão bonito e cheio de cor.
O mais dificil, foi ter de construir tudo do ínicio.
Primeiro, veio uma vaga de chuva depois da grande tempestade, chamada medo. Medo de não conseguir mudar aquela rotina que já fazia parte de si, medo de olhar para a sua tristeza, de olhar para um mundo que não era só colorido, mas também cinzento.
Ainda assim, sem ter alternativa, pôs mãos à obra.
Conseguiu construir uma base para a sua nova casa, e o seu novo "eu".
Conseguiu encontrar pessoas que realmente a quiseram ajudar nestes novos desafios.
E conseguiu encontrar-se a si própria, mesmo em momentos mais dificeis e que a puseram à prova.
Ainda falta construir o resto daquela que será a sua casa, e sentir-se segura para se desprender completamente das rotinas a que se rendia, mas hoje construiu o mais importante desta grande aprendizagem que é viver: uma semente de certeza. Certeza do que quer , e do que é.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um beijo

Um beijo.
Perdido no meio de buzinas,
Sozinho por entre carros.
Um sentido para a caminhada,
Por entre a multidão dispersa
Que em voltas, corre apressada.
Escondido, uma paragem no tempo.
Que abstraído da realidade,
Continua apaixonado.
Um pedaço de amor que contrasta,
Um reencontro que se afasta… que se afasta…

domingo, 13 de fevereiro de 2011

surpresa

Há coisas que permanecem intactas, tal como algumas amizades de longa data.
"Surpresa", gritaram em coro, enquanto dos seus sorrisos brotava uma cumplicidade única, perfeita.
A nossa inocência sabe tudo.
Ao longo do tempo, enquanto crescemos, houve muito que se perdeu, os nossos caminhos rectos e simples, tornaram-se dificeis encruzilhadas com várias bifurcações e aprendemos que é preciso escolher.
Apesar disso, ainda que com algumas escolhas erradas que me fizeram caír, percebi que houve alguns olhares atentos à minha caminhada, com uma mão sempre pronta e um abraço desperto para me acolher.
Hoje percebo que a amizade é um tesouro, como antiguidade consagrada, cada vez mais valioso com o tempo que passa.
Permanecemos, com os mesmos sorrisos alinhados pela felicidade de mais um reencontro.
E são estas pequenas grandes coisas que nos fortalecem, depois de violentas quedas, para esquecer os joelhos esfolados e desbravar novo caminho.
Hoje percebo que a distância física é o que menos importa, porque na verdade estamos juntas em cada momento que a memória faz guardar e permanecer..
Percebo que indissociavelmente estamos ligadas, e que é algo tão forte, uma amizade tão verdadeira e uníssona que é impossivel separar.
Sorrio, e recebo a surpresa como uma dádiva que sem dúvida foi capaz de iluminar um dia cinzento.
Recebo uma amizade capaz de direccionar o meu caminho e que permanece...

filósofos na noite

Sintra. Está escuro cá fora. Já se ouvem os passos rotineiros de mais um dia que chega ao fim.
São os passos sempre iguais de mais uma noite, do recolher...
Também dentro de mim, recolho este momento. Não no silêncio, mas numa música melodiosa que se pousa sobre nós.
Gostava de poder eternizar este momento, como se fosse uma palavra a ecoar para todo o sempre. Guardá-lo dentro de mim, e revivê-lo quando quisesse. Olho-te. Olhas-me. Uma troca de olhares embriagados pelo frio, aproximam-se.
Aproximam-se também os lábios e tocam-se de uma forma ténue.. suave..
Gostava de poder ser eu a proprietária desse sorriso, desse olhar com que me olhas e agarrá-lo para sempre.
Hoje disseste-me, na noite, que isso ia estragar cada pedaço de magia que nos envolve nesta cúpula transparente e tão forte...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

de saída

Acabo de empacotar o resto das coisas.
Desprendo-me por fim das horas, do tempo e deixo-me apenas arrastar, partir para um nível superior, onde as ligações humanas são feitas na profundidade recôndita do coração, no cantinho mais puro e sincero, invisível a todos os outros,a todos aqueles que continuam a vaguear nos esgotos imundos e lamacentos da vida puramente material e momentânea.
Hoje, finalmente, arrumo em caixotes tudo o que tenho, para deixar a minha alma vazia, abro as janelas para que o ar entre e ouço o meu próprio eco a trautear. Tenho a alma vazia, mas tão completa.
Liberta, mas nunca tão ligada, indissociavelmente a momentos, a lugares e ao sentir puro; ao arrepio a deixar-nos a pele sensível, os olhos arregalados e o coração ritmado.
Hoje , sei o que é sentir-me inteira, sem perguntas nem confusões.
Apenas uma janela aberta, pronta a receber. Apenas um silêncio que diz tanto.. mas tanto...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

sozinha

Sozinha, num café fechado, onde a luz não entra e o som é barulhento. Tilintar de talheres, copos e pratos... E continuo a só ouvir-te a ti.
Tenho saudades, de me sentir livre de um peso maior.
Espero um ombro amigo, e no fundo espero também uma resposta. Uma luz ao fundo do túnel. Cliché eternizado, que me indique uma saída, algo reluzente que me mostre qual o caminho que devo seguir.
Em vez disso, sigo um instinto. Uma vontade maior que me comanda. E ela sussurra-me ao ouvido, baixinho, como uma pedra que bate no interior de um objecto metálico.
De repente, um calafrio percorre-me o corpo, a ditar que acorde do sonho em que morro afogada. Mas, já acordada, continuo a sentir um volume de água que se encontra sobre mim. É demasiada pressão. São as memórias que batem à porta e me fazem sentir saudades..
Saudades daquele momento leve em que não existia mais nada, em que os sentidos eram desafiados e um Mundo de ilusões me puxava cada vez mais fundo.
Um jornal cinzento. Passo uma vista de olhos pelo obituário. Eterno descanso daqueles que partem e não ouvem mais notícias tristes... Felizes daqueles que não sabem mais o que é passar em caminhos difíceis.
E não sabem que , para saír deles, é preciso escarpar altas montanhas. Mas a verdade é que, já com os pés cansados e o suor a percorrer o corpo, vale a pena chegar ao topo e ver a paisagem, vale a pena ver tudo aquilo que conquistámos e passámos, agora já com o vento a favor.
Eu sei, porque já lá estive...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sol

Um feixe de luz,
intensidade média.
O teu olhar
a cruzar-se no meu.
Farol que ilumina
o caminho.
Bifurcação,
encruzilhada.
Mas tenho-te
a dares-me a mão.
Num rasgo de cumplicidade
deixamos a noite,
as estrelas,
para um brilho maior
que se avista ao longe.
deixamos as árvores,
tomar as nossas coisas.
e deixamo-nos ficar
mais um dia,
sem perguntas ou razões.
Porque a única razão
és tu.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

flor de lótus


Eu própria desenhei !

marioneta




Ao som do acordeão,

palavras esvoaçam.

Um vento intenso,

se pousou sobre elas.

Outono de palavras,

que caem e florescem.

Movimento-me entre elas,

qual caneta.

Prestes a dizer,

o que não foi dito,

naquela noite.

Ao som da vida

desloca-se um vulto,

Cansado...

As suas mãos vacilam.

Queriam-se entrelaçadas,

a outras.

No cimo a Lua canta

sons nunca antes

terminados.

Canta os seus sonhos

amarrotados,

como papel...

Chovem dela

lágrimas turquesa.

Abre o jogo,

sobre a cidade acesa.

O vulto acorda

do sono (quase) eterno

e dirige-se à Lua,

para lhe dizer que

a ama.

Debaixo de chuva,

sem tecto.

Poeta sem abrigo

Comandado,

por sentimentos fortes.

Calado,

mas diz tanto

à Lua que se pousou

quieta.

Saudoso de um amor.

Move-se ao som da dança,

comandado,

como uma marioneta.


(2/2/11)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

céu azul

Porquê? , perguntei-te.
Talvez soubesses, a razão, aquilo que faz mover cada engrenagem daquilo que sentimos. Desde cedo achei-te com melhor compreensão que eu para essas coisas.
Porque é que às vezes sinto que vou rebentar, e que não cabe dentro de mim o que sinto? Porque é que pego num livro, e nesse instante quero logo saber o final?
Dá-me razões, pedi-te.
Sem mais nem menos, o Mundo gira. Sem mais nem menos a minha cabeça anda às voltas, para me perceber a mim própria.
A tua resposta foi fluida, foi a melhor que pudeste dar. Agarraste nos dedos e começaste a deixar saír de ti uma melodia única, fantástica.
As palavras complicam, disseste. Alimentam a memória, que alimenta a saudade.
Nunca me hei-de esquecer... As palavras efectivamente complicam.
Para quê querer nomear sentidos que são impossíveis de descrever?
O rio corre, porque a água desce, fresca pelas suas margens.
Do mesmo modo, os sentimentos que guardo se deixam fluír sempre de dentro para fora.
Quando é ao contrário, guardo no meu interior uma bola de neve pronta a criar uma avalanche a qualquer instante. Muro coberto de tijolos , prontos a cair.. a desmoronar.
Hoje estava triste, mas soubeste alertar-me de que o céu estava azul, e quando olhei e vi a cor turquesa por cima do meu olhar, fiquei convencida que devia sorrir. Sorri. Sorriste. Sorrimos.

domingo, 30 de janeiro de 2011

nuvéns

Esvoaça no céu um fumo negro, de um combóio. Este avança, na linha férrea a uma velocidade estonteante... Atrás dele corre um crocodilo de um verde esmeralda, esfomeado para o apanhar. À volta vemos uma cidade, toda branca, alguém de dimensões maiores, a polvilha de neve como se de canela para pastel de nata se tratasse.
A expressão do homem que polvilha neve, é a de alguém que tem fome, talvez não coma há alguns dias, e tem estômago até para um crocodilo.
Ao longe, dois dragões dão um beijinho. Estão apaixonados. Eu sei porque consigo ver corações à volta deles, tal é o amor que proclamam. Têm fogo dentro de si, e não é por serem dragões , mas pelo fogo da paixão cujas labaredas amarelas e laranja forte crepitam.
Uma luz ... de um farol, talvez que dá direcção a todos os coelhinhos perdidos, e que têm de atravessar a linha de combóio sob dois graves riscos: levar com o combóio ou serem comidos pelo crocodilo, que desviando o olhar do combóio vislumbra nos coelhos um óptimo aperitivo digno de gourmet.
Dentro do combóio acenam pessoas, talvez com a esperança de eternizarem uma despedida, pô-la no cantinho da memória onde o tempo não chega e se acende a luz do coração. É possível ver na expressão deles a saudade que sentem ao partir, e por outro lado a felicidade de uma nova estação de chegada, de um novo destino.
Ao cimo dois olhos gigantes, preparam-se para chorar. "Desgosto de amor", palpitas tu.
Mas a mim parecem-me olhos de solidão, aquela desesperante, que nos faz sentir os únicos no mundo. Começa a chover.
As pessoas do combóio fecham as janelas, e tiram para dentro os lenços brancos da despedida. É assim, são obrigados a conter aquele sentimento desesperante dentro do combóio, dentro de si próprias.
A mãe coelho abre o guarda chuva às bolinhas, segurando nele para proteger os filhotes e o crocodilo delicia-se com um bom banho, esquecendo a necessidade de almoço.
O gigante vai para dentro, parando a neve polvilhada de caír sobre os vários arranha céus da cidade.
E rapidamente tudo se desvanece como pó.
"Foi bom ver isto tudo" , pergunto-te.
"Sim, é sempre bom observar as núvens "

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Flor amarela

Pensei nesse dia cinzento
Com chuva e tristeza
Frio gélido e vento
E a cidade acesa.
Pensei nos rostos assustados
Nas folhas pisadas
Nos corações calados.
Pensei na violeta amarela
Entre as outras flores,
Perdida na tela,
Que afinal tem outras cores.
Ficou longe de toda a gente
Só por ser amarela,
apenas por ser diferente
E olhos afiados se puseram sobre ela.
Todos nascemos iguais,
uma semente astuta na terra fresca,
uma união que nos faz especiais.
Da mesma água nos alimentamos
E mesmo sem as ver, temos raízes.
No céu, na terra ou no vento
Segundo aquilo em que acreditamos.
Nem todas as flores cantam,
algumas porque são envergonhadas.
Outras encantam,
outras porque não são afinadas.
Mas cada uma delas é diferente
Perdidas pelos cantos da cidade.
Pisadas e humilhadas pela gente.
E têm a uni-las amizade?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

pedras no sapato

A casa da saudade chama-se memória. Às vezes fecho os olhos por segundos e sinto saudade. Saudade do que fui e ainda parte de mim é , mas saudade também dalgumas escolhas erradas que fiz. Depois um enorme porquê surge-me na mente e uma resposta rasgada vem também: porque já foste feliz assim.
Pergunto-me agora se era felicidade o que sentia.
No entretanto aprendi que a linha entre felicidade e ilusão é muito ténue. E quando se voa em ilusão, a queda é complicada.. aprendi isso porque já a experimentei, e aqueles que eu dizia meus amigos não estiveram lá para me ajudar a levantar.
Mas no meu coração que afinal era de papel, de frágil porte e facilmente rasgado por mim própria, comecei a deixar cair pequenas sementes de certeza, atiradas por aqueles que me amam verdadeiramente.
Essas sementes estão a crescer, e olhar para as plantas que estão a dar e para os frutos que virão (espero eu) no futuro faz-me dizer a mim própria que não tenha saudades. "Aquilo não era vida". E parece triste, mas ainda hoje preciso de dizer a mim própria que aquilo não era vida.
É dificil acenar com a mão meia trémula e dizer adeus, mas mais dificil é saber qual o fim de um caminho pelo qual se optou. Hoje sei que perdi algumas coisas, mas sei também que aquilo que perderia seria muito mais dificil de dizer adeus.
Gostava de dizer que apaguei da memória muitos dos momentos passados , mas cabe-me dizer a mim própria que não posso. Não podes.
Eles fazem parte da minha experiência, da minha vida, do meu crescimento. São minhas. Não posso dizer que sejam tesouros com os quais guardo com cuidado, mas pequeninas pedras no sapato , que por mais dolorosas que sejam, não posso tirar.
Acho que é a primeira vez que escrevo sobre isto, que dou o meu testemunho pelo que me aconteceu. Gostava de poder transmitir essa mensagem a todos os que já pensaram como eu, já foram como eu, ou de certa forma acreditam que é possivel viver assim, numa ilusão constante. Digo de experiência que não é.
Que chega a uma altura em que os dias não são dias, é mais tempo que passa e que se olham ao espelho e se veêm assim,; que chega uma altura em cavam o mesmo buraco em que se deixam caír.
E eu tive a sorte de ter mãos prontas a levantar-me, ainda que pudessem não ser as de quem eu esperava. Mas elas tiveram lá, prontas a dar-me provas de uma amizade sólida, verdadeira, fora da ilusão em que vivia.
Hoje , aprendi a dar valor ao que é real, autêntico, genuíno. A dar valor a mim própria.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Colhe o dia porque és ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

voar

Por uma única vez só, apetece-me hoje tirar os pés da terra e entrar no mundo onde a magia impera. Soltar-me e dançar com o vento, deixar a música entrar em mim e voar.
A imaginação salta-me na cabeça. Constelações de alfabeto, noites escritas a giz, pastilhas elásticas de aniversário e domingos de futebol.
Encaixo-me na gaveta dos sonhos, perfeito encaixe,como puzzle por terminar. Com mil peças, retalhos de coisas que se juntam e formam uma só. Como eu gostava de ser contigo, um puzzle que se une e forma um só.
Já dentro da gaveta, onde apenas se sente o calor da noite e o vento não chega deparo-me com a Lua.
"Olá."
Que bom que era se ela me desse um pouco do seu brilho. Nunca sonhei ser estrela, mas sempre gostei de brilhar. Sem resposta, continuei a vaguear pela gaveta, até que acordei, mas com mais brilho. Afinal a Lua lê os pensamentos.