sexta-feira, 26 de março de 2010

Primavera Poética


E não é a Primavera um tempo de renovação, simples e natural que vem com um vento ameno que nos enche a alma de cheiro a flores, a terra e a noites maiores de Lua brilhante estampada no céu ainda aceso?
Essa renovação não é imediata. Tal como as flores despontam devagarinho, ao seu ritmo a poesia entranha-se em nós num compasso sereno, num levitar quase suspenso.
Principia-se o ritual, despindo os trapos velhos de um Inverno frio, de erros crus e negros, de noites longas de chuva cortante, de ventos a favor e contra e que nos desviam da orientação principal.. Esse despir não tem de ser martírio e apatia, mas sim confiança e desvario (moderado). Ao retirar a aspereza da sarapilheira que nos pesa nos ombros, sobressai um branco límpido pronto a preencher. Branco de simplicidade, pureza, entrega...
Branco que desperta para uma abertura que nos leva a pintar em nós, na vida, nos outros as diversas cores da Primavera. E estas cores são movimento, dança, partilha conjunta de arte escrita.
Arte escrita para ser dita. Por nós e por todos.
Palavras que nos fazem chegar uns aos outros, numa segurança firme e sincera.
É este olhar do Mundo e de todos que nos une. O saber que se vacilarmos, temos alguém pronto a impedir-nos de caír.. que podemos ser silêncio, mas que logo a seguir vai haver alguém a chegar-se à frente e a preencher-nos com palavras. Ou com reticências...
Estamos juntos ! OBRIGADA.

quinta-feira, 18 de março de 2010

maça com bicho

Verdade sentara-se na mesa de pedra branca sob a luz amarelada do candeeiro de luz frenética e instável. Sob a mesa encontrava-se uma taça de fruta e uma tigela de sopa.
Sempre que se sentava sob aquela luz que lhe apontava o olhar, acabava por engolir mais uma colher. E engolia, uma e outra vez.
Não porque tinha fome, mas porque desde pequena lhe diziam que não se devia estragar comida.
Havia sempre uma voz dentro da Verdade a dizer-lhe que não se devia estragar.
A sua vida conduzia-se como um jogo de xadrez, o dedo dos que a comandavam impunha força sobre a sua pequena peça que deslizando sobre o tabuleiro avançava ou recuava numa total entrega ao momento e à direcção sem saber quando existiria um Xeque-Mate para o adversário.
Para a Verdade nem havia um adversário.
Todos eram seus companheiros neste estranho modo de vida. Bastava deslizar pelos quadrados brancos e pretos.
O chão onde a Verdade caía era assim, geométrico e linear: de dimensões iguais independentemente da peça de quem se aproximava, e de duas cores apenas, branco ou preto, tudo ou nada, verdade ou mentira, ódio ou amor, abraço ou pontapé, beijo ou chapada, euforia ou apatia. Já caíra algumas vezes, mas havia sempre alguém para a levantar... Nunca seria capaz de o fazer sozinha e dentro de si sabia-o.
Um dia, o rei oponente estava quase a fazer Xeque-Mate, e Verdade sem saber sequer de que lado jogava continuava no seu Mundo ilusório desprendido de algum sentido ou noção real, até que o peão se move para a frente dela e lhe mostra como saír daquele tabuleiro de comandos, complicações.
Mas para exteriorizar todas estas dificeis questões foi necessário confrontar Verdade com a verdade.
Qual destas seria a real? A sua própria essência, que apesar de ser aquilo a que agarrava porque era quem conduzia não estava certa se Verdade era mesmo ela própria, pois se nem do jogo da vida sabia as regras, para quê colocar-se noutros jogos que ainda por cima jogava em mãos de outros?
A verdade não estava dentro de Verdade. E ela no seu íntimo mais profundo sabia-o, mas o que mais lhe custava era poder ter de exteriorizá-lo, não só pela imagem que lhe traria, mas também porque exteriorizá-lo seria admiti-lo para si própria e senti-lo.
Sentir-se-ia traída, enganada por si a si.
Sufocada com a sua própria maneira de ser, incomodada com a sua própria companhia...
Depois da saída de um tabuleiro de padrões geométricos lineares de preto no branco, apercebeu-se que a vida só se equilibra num contraste intermédio entre as cores extremas possíveis.
Apercebeu-se que os extremos são posições muito perigosas de assumir e manter reais.
Que antes de qualquer jogo vem a vida, e esta competição connosco é o que nos permite criar as nossas próprias regras. O produto deste jogo é nosso, e quem se conduz ao longo deste somos nós próprios.
Verdade compreendeu o mais importante: que ao querer apresentar-se como Verdade para o Mundo que a rodeava implicava ser uma mentira. Esta verdade fez ruir Verdade.
Como se um pequenino pedaço de estuque velho e frágil, (antes acreditado como uma parede sólida) ruísse sobre a Verdade e pusesse ao descoberto cada pedaço de si mais obscuro.
Cabia-lhe virar costas e saír.
Trincou a maça que tinha à sua frente, e ao observar com mais atenção o fruto brilhante apercebeu-se que possuía um pequeno buraco indicador de bicho.
"A Verdade não foi a primeira a chegar aqui"

metamorfose

Cremos (e queremos) ter asas coloridas, premiadas com padrões caleidoscópicos e únicos, longas e capazes de voar bem alto e longe, mas a verdade é que não existe borboleta que para a atingir isso não precise de um estado de metamorfose, período no qual não se sente pertencer a lado nenhum.
São momentos de sensibilidade larvar, em que a pequena pupa se esconde no 1interior da sua própria crisálida frágil.
Sentir que pusemos a nós mesmos um par de asas tão descartáveis e falsas, só para mostrar aos outros que somos capazes de voar. Para quê?
Essa luta, por mais que pareça expressa em gestos e expressões, é uma luta interior, uma busca incessante do estado seguinte. Da conclusão desta metamorfose global (de espírito).