segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um beijo

Um beijo.
Perdido no meio de buzinas,
Sozinho por entre carros.
Um sentido para a caminhada,
Por entre a multidão dispersa
Que em voltas, corre apressada.
Escondido, uma paragem no tempo.
Que abstraído da realidade,
Continua apaixonado.
Um pedaço de amor que contrasta,
Um reencontro que se afasta… que se afasta…

domingo, 13 de fevereiro de 2011

surpresa

Há coisas que permanecem intactas, tal como algumas amizades de longa data.
"Surpresa", gritaram em coro, enquanto dos seus sorrisos brotava uma cumplicidade única, perfeita.
A nossa inocência sabe tudo.
Ao longo do tempo, enquanto crescemos, houve muito que se perdeu, os nossos caminhos rectos e simples, tornaram-se dificeis encruzilhadas com várias bifurcações e aprendemos que é preciso escolher.
Apesar disso, ainda que com algumas escolhas erradas que me fizeram caír, percebi que houve alguns olhares atentos à minha caminhada, com uma mão sempre pronta e um abraço desperto para me acolher.
Hoje percebo que a amizade é um tesouro, como antiguidade consagrada, cada vez mais valioso com o tempo que passa.
Permanecemos, com os mesmos sorrisos alinhados pela felicidade de mais um reencontro.
E são estas pequenas grandes coisas que nos fortalecem, depois de violentas quedas, para esquecer os joelhos esfolados e desbravar novo caminho.
Hoje percebo que a distância física é o que menos importa, porque na verdade estamos juntas em cada momento que a memória faz guardar e permanecer..
Percebo que indissociavelmente estamos ligadas, e que é algo tão forte, uma amizade tão verdadeira e uníssona que é impossivel separar.
Sorrio, e recebo a surpresa como uma dádiva que sem dúvida foi capaz de iluminar um dia cinzento.
Recebo uma amizade capaz de direccionar o meu caminho e que permanece...

filósofos na noite

Sintra. Está escuro cá fora. Já se ouvem os passos rotineiros de mais um dia que chega ao fim.
São os passos sempre iguais de mais uma noite, do recolher...
Também dentro de mim, recolho este momento. Não no silêncio, mas numa música melodiosa que se pousa sobre nós.
Gostava de poder eternizar este momento, como se fosse uma palavra a ecoar para todo o sempre. Guardá-lo dentro de mim, e revivê-lo quando quisesse. Olho-te. Olhas-me. Uma troca de olhares embriagados pelo frio, aproximam-se.
Aproximam-se também os lábios e tocam-se de uma forma ténue.. suave..
Gostava de poder ser eu a proprietária desse sorriso, desse olhar com que me olhas e agarrá-lo para sempre.
Hoje disseste-me, na noite, que isso ia estragar cada pedaço de magia que nos envolve nesta cúpula transparente e tão forte...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

de saída

Acabo de empacotar o resto das coisas.
Desprendo-me por fim das horas, do tempo e deixo-me apenas arrastar, partir para um nível superior, onde as ligações humanas são feitas na profundidade recôndita do coração, no cantinho mais puro e sincero, invisível a todos os outros,a todos aqueles que continuam a vaguear nos esgotos imundos e lamacentos da vida puramente material e momentânea.
Hoje, finalmente, arrumo em caixotes tudo o que tenho, para deixar a minha alma vazia, abro as janelas para que o ar entre e ouço o meu próprio eco a trautear. Tenho a alma vazia, mas tão completa.
Liberta, mas nunca tão ligada, indissociavelmente a momentos, a lugares e ao sentir puro; ao arrepio a deixar-nos a pele sensível, os olhos arregalados e o coração ritmado.
Hoje , sei o que é sentir-me inteira, sem perguntas nem confusões.
Apenas uma janela aberta, pronta a receber. Apenas um silêncio que diz tanto.. mas tanto...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

sozinha

Sozinha, num café fechado, onde a luz não entra e o som é barulhento. Tilintar de talheres, copos e pratos... E continuo a só ouvir-te a ti.
Tenho saudades, de me sentir livre de um peso maior.
Espero um ombro amigo, e no fundo espero também uma resposta. Uma luz ao fundo do túnel. Cliché eternizado, que me indique uma saída, algo reluzente que me mostre qual o caminho que devo seguir.
Em vez disso, sigo um instinto. Uma vontade maior que me comanda. E ela sussurra-me ao ouvido, baixinho, como uma pedra que bate no interior de um objecto metálico.
De repente, um calafrio percorre-me o corpo, a ditar que acorde do sonho em que morro afogada. Mas, já acordada, continuo a sentir um volume de água que se encontra sobre mim. É demasiada pressão. São as memórias que batem à porta e me fazem sentir saudades..
Saudades daquele momento leve em que não existia mais nada, em que os sentidos eram desafiados e um Mundo de ilusões me puxava cada vez mais fundo.
Um jornal cinzento. Passo uma vista de olhos pelo obituário. Eterno descanso daqueles que partem e não ouvem mais notícias tristes... Felizes daqueles que não sabem mais o que é passar em caminhos difíceis.
E não sabem que , para saír deles, é preciso escarpar altas montanhas. Mas a verdade é que, já com os pés cansados e o suor a percorrer o corpo, vale a pena chegar ao topo e ver a paisagem, vale a pena ver tudo aquilo que conquistámos e passámos, agora já com o vento a favor.
Eu sei, porque já lá estive...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sol

Um feixe de luz,
intensidade média.
O teu olhar
a cruzar-se no meu.
Farol que ilumina
o caminho.
Bifurcação,
encruzilhada.
Mas tenho-te
a dares-me a mão.
Num rasgo de cumplicidade
deixamos a noite,
as estrelas,
para um brilho maior
que se avista ao longe.
deixamos as árvores,
tomar as nossas coisas.
e deixamo-nos ficar
mais um dia,
sem perguntas ou razões.
Porque a única razão
és tu.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

flor de lótus


Eu própria desenhei !

marioneta




Ao som do acordeão,

palavras esvoaçam.

Um vento intenso,

se pousou sobre elas.

Outono de palavras,

que caem e florescem.

Movimento-me entre elas,

qual caneta.

Prestes a dizer,

o que não foi dito,

naquela noite.

Ao som da vida

desloca-se um vulto,

Cansado...

As suas mãos vacilam.

Queriam-se entrelaçadas,

a outras.

No cimo a Lua canta

sons nunca antes

terminados.

Canta os seus sonhos

amarrotados,

como papel...

Chovem dela

lágrimas turquesa.

Abre o jogo,

sobre a cidade acesa.

O vulto acorda

do sono (quase) eterno

e dirige-se à Lua,

para lhe dizer que

a ama.

Debaixo de chuva,

sem tecto.

Poeta sem abrigo

Comandado,

por sentimentos fortes.

Calado,

mas diz tanto

à Lua que se pousou

quieta.

Saudoso de um amor.

Move-se ao som da dança,

comandado,

como uma marioneta.


(2/2/11)