sexta-feira, 25 de março de 2011

O piano

Ao longe, um piano que toca uma melodia inexplicável, de tão familiar que é. De tão palpável que se torna, quando os dedos percorrem as teclas numa corrida intensa.

Ao perto, uma memória em forma de fotografia pintada a preto. A branco. O meu olhar, ao passar por ela consegue colorir cada espaço deixado sem cor pelo tempo, cor que agora volta potenciada pela saudade.

O tempo escasseia, corre apressado, mas a memória permanece intacta, silenciosa e quieta. À espera de ser novamente tocada, beijada.

Hoje olho para ti, memória. Olho-te nos olhos e percebo que temos muito para dizer uma à outra. Tenho que te dizer que a saudade que sinto de ti, é a mesma que me permite apertar-te contra o peito e seguir caminho, deixando-te novamente quieta e silenciosa.

As teclas, essas, vão sendo pressionadas com a mesma intensidade com que me vejo obrigada a deixar-te para trás, memória. A partir do momento em que foste vivida, passaste a ser logo isso: uma mera memória, que volta às vezes para me reencontrar agora num caminho diferente, renovado.

Acho que não tenho mais nada a dizer-te. Olhar para ti traz-me um conforto enorme, conforto de não estar mais aí, contigo a viver-te. É a mesma sensação de estar a olhar a chuva, protegida no conforto de uma casa, onde às vezes também chove.

Mas por agora o tempo está ameno, estamos cá só nós duas. E o piano.

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3 comentários:

  1. :) que lindo. Fiquei emocionada a ler isto. Juro-te. Está perfeito.

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  2. Oitavas que excitam, oitavas que animam
    com os acidentes, ora bemol ora sustenido.
    para bom ouvido, está tudo entendido.

    parece que escrevestes isto a tocar no piano, muito bom! ^^

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  3. Também gosto muito de conversar com as minhas memórias:)

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