domingo, 8 de agosto de 2010

asas de fada



Traz-me o chá. Trá-lo bem quente. Preciso de aquecer a alma, de aromatizar essa estrada molhada da chuva, asfaltada de medo; essa tal que há tanto tempo chamam de vida.
Sento-me no piso de névoa, gelada como eu, as minhas mãos encaixam no chão frio numa ligação quase perfeita de caminhos percorridos e destinos pesados e gélidos como a pedra polida do chão.
O medo sussurra-me ao ouvido em linguagem estratégica, cada palavra planeada pormenorizadamente ao nível do mais sórdido e assustador terror psicológico.
Raízes… raízes … raízes …
Raízes que me aprisionam às origens, que não me deixam ser uma árvore crescida e que me vendam os olhos e prendem os membros e não me deixam ver o Mundo nem me deixam ver a mim.
Silêncios mecanizados e zumbidos em altifalantes que me calam, corroem a garganta e não me deixam cantar a música que eu quero, não me deixam sequer falar nem gritar de revolta, nem chorar de desespero.
Apenas queria ver o Mundo com os meus olhos. Já ficava feliz se me deixassem só espreitar para saber como é.
E assim choro cá dentro da minha alma pequenina, mas já tão pesada.
Às vezes sorrio e penso nas minhas fadas que inventam a música, a alegria e o Mundo para mim. As minhas fadas que cantam e pintam a vida com arco-íris e pozinhos que cheiram a pétalas e a folhas molhadas da chuva e dos cristais mágicos da manhã.
Mas o asfalto da estrada e os carros. E as figuras que assombram.
Choro e derreto o que sou cá dentro.
E se ao menos as fadas inventassem a liberdade para mim e ma dessem numa folha envolvida em vento … !

(ainda era no tempo da framboesa silvestre. alguém se lembra?)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sur le fil

http://www.youtube.com/watch?v=jJqYjL4kia8

O cubo translúcido rebola pela montanha abaixo. No caminho, a alta velocdade, pisa pequenas flores que ali, onde o vento chega seco e impiedoso, custam tanto a crescer... Ao mesmo tempo, é picado pelos espinhos de silvas que se amontoam naquele recanto de nada, onde não chega calor nem luz. Estes cravam-se nos seus pedaços de vazio que tem dentro de si. São dolorosos e afiados, mas ao mesmo tempo uma suave sensação de conforto apodera-se dele, porque apesar de sentir uma pontada aguda, sente também que há algo que se prende a ele durante a vertiginosa queda que experimenta.
A vertigem do vazio é a maior que alguma vez vivera.
Apercebe-se, que mesmo que queira escapar, o tempo lhe escorre pelo peito e é agora demasiado tarde.
Pensa na morte, com uma força tal que já se sente assim. Sabe que ao pisar o que tanto lhe custara a viver e crescer, já morre um pouco, a cada dia.
Agradavelmente, pensa na hipótese de um céu azul, com um clarão de amor aqui e ali mas abaixo dos seus pés apenas vê trevas e escuridão.
Está tão sozinho que até o chão se recusa a tocar-lhe os pés. Camnha numa espécie de sobrevivência flutuante que se ergue sobre ele e é agora penerante e aterradora.
Tenta gritar, mas até a garganta secou de tanto silêncio que guarda dentro de si. A frustração é agora um resto de emoção interior que suga como um remoinho os poucos e escassos pedaços de si que ainda guardava, como recordações antigas e ultrapassadas que guardamos dentro de caixas, escondidas, para um dia, com mais coragem, as deixarmos saír e voar livres. Livres de nós e do peso que carregam.
Ao lembrar esses escassos rasgos de si, parece sorrir; mas a sua cara perificou de tanto sorriso que prendeu na cara sem sentido. No seu olhar resta essa vontade imensa de sorrir para se despedir de uma parte de si, como se esta tivesse em fase terminal, prestes a morrer.
Nem de uma despedida era digno.
Imaginou o seu funeral, cheio de coroas de flores que cresciam e se alimentavam das lágrimas de todos os que o perdiam...
A dura realidade com que se confrontava era ter-se perdido a si mesmo primeiro, sem deixar sequer que a sua falta pudesse ser sentida pelos outros.
E efectivamente não era.
Estava preso com amarras de dor e indiferença. Dentro do peito batia-lhe a vontade de chorar, quando há muito já secara por dentro. Estava amarrado a si mesmo e cada vez mais perto do chão, do fim.
Sem uma lágrima, uma despedida, um grito, um sorriso, um gesto.
Apenas aquele olhar longuíquo, perdido, pesado. De um castanho mais profundo que ele mesmo.
Estava agora dormente e num formigueiro constante. Era o chão, o fim...
E a leveza de um peso que se liberta. Para sempre.

domingo, 1 de agosto de 2010

miscelânea de palavras

Lisboa pintada de céu e rio, cuja tradição esvoaça entre prédios e casas, e cujas pontes nos transportam para outros lugares onde o Sol não brilha da mesma maneira.
Maneira de cavar a terra é importante para uma boa agricultura.
Agricultura de relações... Temperar a atmosfera. Dar-lhe calor, frio, alimento, clima oxigenado para que lhe seja possível respirar, ganhar raízes sólidas e acima de tudo crescer. O céu não é o limite.
Não há limite, na terra nem no céu. O infinito é o limite e isso é que dá força para continuar a lutar.
Lutar para chegar ao destino. E quando alguém tenta fazer-te desistir, resta apenas um fio de luz que permite fazer como um herói e encontrar alguém capaz de te fazer desistir de desistir. Esse alguém põe-te feliz nos momentos de angústia e ensina-te a fazer da tua desgraça uma piada.
Piada como as comédias que giram à volta da má condução feminina.
Ser feminina vem da paixão que temos por nós próprias. Sentirmo-nos bem connosco é importante, porque se gostarmos de nós, quem não gostará?
Gostará de se apaixonar por um homem que não faz muito o seu género? É um bocado labrego...
Nas suas partes íntimas os pêlos crescem como cebolas deitadas à terra. Não sabe apreciar lingerie discreta, tem como melhor amiga a bebida e o pior: quando chega a hora da verdade, não tem lá grandes atributos.
Atributos do whisky é que fazem deste líquido uma das bebidas mais caras do Mundo.
Mundo de mentiras e cobardias que se espalham pelo ar. A vida perde o sentido.
Depois há pequenos sinais que murmuram constantemente a verdade ao ouvido e que dizem baixinho: " SONHA".

(jogo das frases embrulhadas- Maggie e Lia)