quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

isolar o vão da porta

há uma altura em que como a Lua
pensas que é só uma fase.
mas quando te sentes a minguar
torna-se cada vez mais mínimo e insignificante
tudo o que és
pões-te a questionar tudo (involuntariamente, porra!)
desejas que no instante seguinte
o que resta seja só uma folha em branco,
um espaço vazio
um pedaço de vácuo.
Para que lá possas colocar tudo o que te apetecer
e para que lá possas colocar-te a ti,
como quiseres.
Infelizmente não é assim.
vida e destinos e escolhas
e quando já fizeste a tua,
há um momento em que páras e vês que o caminho não era aquele.
e agora ?
agora é voltar para trás...
isolar o vão da porta, e esperar que o não entre...
quando passar, já posso sair !

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Atreve-te

"Atreve-te a julgar.
Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza.
Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções,
não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer.
Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis
mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Procura encontrar-te antes que
te agarre a voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão.
Uma paixão irrequieta que não te dê descanso
e te faça doer a respiração.
Aspira o ar, bebe-o com força, é teu,
nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo.
Canta.
Canta a água e a montana e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência
com que crescem as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos,
e cada amigo
como um astro que desponta
no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria.
A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados
e os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou.
Canta!
Se sentires medo, canta.
Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
Constrói o teu amor, vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
o que mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
nada será igual alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança.
E canta quando a esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e
porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso.
Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade."

Joaquim Pessoa, Vou-me embora de mim, Hugin, 2000.

Obrigada pai, sabias que ia precisar desta mensagem de força um dia!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

simples mente

Pulsar de jade sobre o orvalho.
As gotículas que numa lufa-lufa, se organizam sem lógica.
Como aqueles pedaços de água
que esvoaçam nos vidros
e escorregam perfeitamente desprendidos.
desorganizados, descoordenados e felizes.
Um acordar, um adormecer.
Complexidade de um movimento.
Aberto e livre,
motivado pela manhã nova.
Promessa de ciclos.
O teu argumento é circular.
Inválido.
é impossível de esconder o atrito?
Observa só as gotinhas esmeralda
que se pousam nas folhas verdes
e deixa a simplicidade invadir-te o espírito.
Sentiste?
nao fui eu.. foi a Lua. :)

concha

Uma luz que se apaga. Um silêncio. Uma estrada que ficou por preencher com passos e um passo indeciso, a meio caminho.
Questões que atravessam as entranhas até ao íntimo mais secreto e recondito.
Contradição persistente, dolorosa, frenética.
Pequenas ligações que se rompem e criam novas ramificações, sem rumo a diferentes horizontes.
Falta de uma referência, direcção.
Palavras demasiado forçadas. Gritos acurralados. Uma asa partida.
No coração vontade de voar... o vento chama, mas será que quero deixar que ele me leve? Será que é ele que me quer levar?
É uma concha fechada, vedada, tapada, escondida.
Quero abri-la, tanto. Será que encerra no seu interior uma pequena pérola brilhante?
Tenho medo que esteja vazia. Do vazio, do escuro, do fundo interior que exala tanto desconhecido aliciante e ao mesmo tempo perigoso.
Sei que tenho de fazê-lo, se não fôr eu, tal como nos feitiços o seu pequeno brilho ficará para sempre disperso, impossibitado de se tornar útil. Esse brilho está lá, ou é preciso criá-lo?

É preciso decidir, sem voltar atrás. Ou então as correntes vão levá-la cada vez mais fundo.

sábado, 2 de janeiro de 2010

resoluções de ano novo

1- manter o quarto arrumado
2- manter a cabeça arrumada
3- manter a vida arrumada

e acho que é isto.