quarta-feira, 9 de março de 2011

casa da praia

O burburinho do mar era constante. A força com que este se debatia contra as rochas era quase impossível de descrever.
O céu, de um laranja profundo indicava um bonito fim de tarde. Ao longe o farol, ainda com as luzes desligadas completava aquele lindo cenário.
A noite aos poucos, chegava ao local. Era a hora do recolher, todos chegavam a casa menos ela. Ela apenas se deixava permanecer, mais um segundo, mais um minuto, mais uma hora.
Sem porquês ou razões, absorvia a calma e a paz daquele momento, com a certeza de que voltar ali a faria sentir-se sempre igual. O vento fazia os seus cabelos esvoaçar a um ritmo quase tão frenético como o pensamento.
A última vez que ali estivera, estava perto do abismo. A cada dia que passava sentia-se perdida na imensidão de uma rotina sempre igual, assustadora e quase auto-destrutiva.
Esperava um São Sebastião no nevoeiro, uma breve canção que a fizesse despertar para algo novo.. Mas isso não chegava.
Procurava nos cantinhos mais recônditos da sua alma, a força, a razão para continuar, mas havia outra força contrária a puxá-la cada vez mais fundo. Estava a remar contra a maré, sem o vento a favor e com o barco destruído. Estava sozinha no mar alto, e não avistava por perto uma ilha ou um colete salva-vidas.
Quando foi àquela praia deserta e se sentou na areia, apenas pôde ver as suas imagens a sobrevoar o mar e as ondas, a pairar em frente aos seus olhos. Assistiu como num filme ao seu percurso, e já sem razão as lágrimas choviam-lhe pela cara abaixo.
" Caminha até ao mar "- ouve de súbito uma voz desvanecida.
Um pouco assustada obedece ao pedido.
Pé ante pé, com medo de tropeçar, visto que já tinha caído várias vezes, avança em direcção a um mar revolto que se debate à sua frente.
Junto à rebentação das ondas, consegue sentir a fúria ainda mais forte que grita dentro de si. "Porquê?"- pergunta a si própria.
As respostas vêm fluidas, como a água que avança para ela.
Foste como a gaivota, deixaste que o vento tomasse as tuas coisas e que a força dos ares determinasse a tua direcção.
Dançaste como as algas, ao sabor do momento, ao sabor das correntes do mar.
Quiseste ser como o polvo e abarcar todos os pequenos pedaços de vida nos teus braços.
As respostas sobrevoam agora a areia, e pode ver claramente todas as palavras das frases que ecoam no seu pensamento...
Olha agora, o seu reflexo no mar. Tem os olhos cansados, mas no seu olhar vive uma palavra: esperança.
Subitamente o farol liga-se. Ainda no meio do mar, tem agora uma luz que lhe indica o caminho. O salva-vidas , são pequenos braços amigos que se atiram sobre ela para a agarrar.
É agora o momento da decisão : o momento de saber qual o caminho a seguir.
Agarra aqueles braços, com a força com que agarra hoje a vida.
Nem sempre tem um farol que escolhe por si, qual o trajecto melhor. Mas tem uma voz, aquela que um dia lhe disse para caminhar até ao mar: a sua voz interior.
Naquela praia, descobriu pedaços de si, antes para sempre perdidos. E hoje, festeja aquele momento enquanto espera o instante em que o farol acende novamente para dar alento e esperança aos barcos que navegam em alto mar. Olha para o céu, de uma cor de lusco-fusco e sorri, porque hoje, se sente em casa.

2 comentários:

  1. Gostei muito, pois acaba de modo reconfortante:)

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  2. gostei muito também. Ainda bem que o farol trajetou o(a) protagonista para o caminho certo.

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