sábado, 25 de setembro de 2010

how I wish you were here


São 5 da manhã. A aurora apressou-se a vir com um nevoeiro quase gélido. No campo, as flores recebem um orvalho brilhante que absorvem como pequenas pedras preciosas que ornamentam uma ou outra polegarzinha adormecida por entre pétalas coloridas. Vagueio na minha memória tão cheia de coisas até te encontrar a ti.

Lembro-me de alguma música que deixaste, e que quando alguma expressão ou silêncio me remete para ti, se afirma dentro de mim esta melodia tão única e sublime ao mesmo tempo, encerrada naquela tarde tão triste em que no teu carro me disseste adeus.

Depois disso, e às escondidas, os nossos olhos voltaram a cruzar-se e os nossos vultos a tocar-se como se por magia, nos unissemos secretamente e por instantes, para depois daquele pulsar tão agitado, nos separarmos de novo.

De guitarra às costas corres na direcção oposta à minha e finges que não me vês. É com uma voz quase em surdina que grito o teu nome, logo a seguir a uma chuva miudinha se instalar em nós. Na rua e em todos os espaços a descoberto.

Olhas para trás e é a correr que te apressas na minha direcção. Assim que chegas, desapareço. E tu ficas ali, sozinho à chuva, no teu sonho interminável a imaginar um regresso ao nosso beijo, ao nosso entrelaçar de corpos, à nossa paixão assolapada e quase interminável.

Seria quase fatal se nos víssemos de novo.

Em casa, sentada ao piano, tento traduzir o que sentíamos naquela altura em que tudo era bonito quando estavas ao meu lado. Tento pôr para o papel antigo e amarelado de partitura como tu eras comigo, o carinho com que nos olhávamos e tocávamos, as músicas que fizemos um dia juntos enquanto partilhavamos a vida um com o outro.

Os momentos de loucura por essa noite fora em que nos encontrámos às escondidas.

"Mas o amor é curto e deixa mossa" e foi com ela que ficámos, cada um para seu lado. Tu a envolveres-te com outras, e eu, sozinha ao piano a construir o meu futuro na escrita, e sem ti.

A aprender a consolidar o que é intenso e a deixá-lo a cristalizar apenas na memória e longe do coração. Mas o meu coração ainda bate mais depressa quando te relembro. E é com convicção e certeza que hoje toco para ti esta música ao som de uma banda com a qual já fomos quase tudo.. mas também ao som da qual nos reduzimos a quase nada.

Como gostava de, em certos instantes fazer o tempo voltar para trás and... Oh, how I wish you were HERE.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

a PALAVRA

Ainda a manhã estava de joelhos, prestes a levantar-se, dirigiu-se a mim um vulto.
Pelo andar pesado, mas calmo, jurei que devia ser alguém de idade. Daquelas senhoras respeitáveis que se aperaltam todas, mesmo naqueles dias que não saem de casa. Cheirava a pó de arroz, baton vermelho e perfume antigo, bem distribuido pelo seu corpo meio cansado e indefenido, com aqueles vaporizadores com uma bola de borracha.
Mal me viro para trás, esfrego os meus olhos ainda meio ensonados e para o meu grande espanto não vejo ninguém. Para me certificar que estava realmente acordada, tirei o lenço do pescoço e o vento forte que senti num arrepio gelado, garantiu-me que não estava a sonhar nem no meu sétimo sono.
"Estranho" pensei. Ouvi mesmo alguém.
Entretanto lembrei-me daquelas histórias de espíritos passados que se contam em noites escuras quando estamos acampados, debaixo de céus estrelados e luas cheias. Mas há muito tempo que não ouvia esses disparates, e também há muito que não acreditava neles e por isso, já atrasada para o autocarro, continuei a andar.
Assim que no autocarro, abri a revista que tinha levado para ler, comecei a ver as palavras a movimentarem-se e a criarem novas frases, com sentidos completamente diferentes dos que inicialmente tinham.
Percebi logo que o fugaz encontro que tivera, foi sim com uma velhota, uma senhora que tão depressa se encontra aperaltada como toda suja e o mais rude e àspera possível: a Palavra.
Confrontei-me por momentos com o poder que Ela tem. Poder de união, e dissociação.
Compreendi que pode ser o que quiser, consoante os contextos que se insere, e como tal é um pedaço de barro por moldar, um pedaço de pedra informe por esculpir.
Quando bem encaixada e trabalhada pode ser o que quisermos. Podemos ser o que quisermos se nos fizermos acompanhar desta senhora. É preciso é sabermos relacionar-nos com ela.

domingo, 19 de setembro de 2010

Receita

Ingredientes:
2 doses de determinação
300 g de optimismo
1 kg de iniciativa
1,5 litros de coragem líquida
250 g de generosidade
1 dose de humildade
1 pitada de originalidade
liberdade q.b.

Modo de preparação:
Antes de começar a misturar os ingredientes diga para si própria "sinto-me completa". Perceba que o que importa realmente na receita não são tanto os ingredientes, mas a vontade com que a vai preparar. Como encontra a forma criativa e livre de seguir para a frente com a receita, mesmo que não esteja explícito no procedimento como dar a "volta por cima" se lhe faltar alguma coisa. Isso é consigo. Às vezes se tiver a coragem de a fazer à sua própria maneira, em vez de ir pedir ao vizinho que lhe dê o que lhe falta, poderá descobrir coisas novas e surpreender-se.
Sirva como quiser, em quantidade ilimitada àqueles de quem mais gosta e que o querem acima de tudo ver feliz.
Bom apetite !

viagens férreas II

Negra é a tua aparência. Vislumbras cada segundo desse luto que é o teu tudo. Há um vazio que se avizinha de ti, que vem de dentro do que te é mais íntimo, mas que sai do teu olhar, do teu supiro desanimado que espera muito mais que o autocarro.
Esperas um reencontro com o teu sorriso que te deixou repentinamente sem se despedir.
Desde esse dia, conservas a mesma aparência, agora privada de luz. Um pouco da tua essência permanece contigo, cinzenta de cor e que tu própria silenciaste. Em cada passa que dás no cigarro amargo, expiras um fumo áspero que te seca a garganta, mas te alivia o corpo. Esse fumo que soltas, tem o poder de te enevoar a vista de todas as oportunidades que não agarraste para reencontrar o teu sorriso.
Esse negro que carregas sinaliza que parece ser tarde de mais, mas sinaliza também que sentes saudades.
E para além disso, é sempre tempo de reencontrar. E de sorrir

sábado, 11 de setembro de 2010

viagens férreas I

Sentado junto à porta do combóio, defines o teu lugar como sendo um diferente, talvez porque os teus padrões não se enquadram nos comuns. Qual é o teu destino? Pergunto-me para onde vais, nem sei porquê.
Com o teu pensamento fora de ti próprio, talvez tão longe de ti que preferiste abandoná-lo. E quando nos abandonamos a nós próprios.. quando esse silêncio tão díficil se apodera de ti, torna-se muito mais fácil criar vozes que falem contigo.
Criar gestos que te defendem de ti próprio e que ao mesmo tempo nos fazem olhar para ti.
E foi assim que olhei para ti.

e depois?

E depois?
Se afinal nunca te lembraste de perguntar como me sentia em relação a tudo o que experimentávamos e vivíamos, e que quando tentei explicar, até com receio de que não me aceitasses aquilo que estava a viver dentro de mim e que por receio e falta de vontade não deixava logo transparecer com medo de me sentir sozinha? Provavelmente preciso dessa distância que me permite olhar mais para mim, com outros olhos... os meus e não os teus e dizer-me a mim própria que o mais importante é aceitar-me, como sou. Com as minhas limitações e receios, que na verdade não são inuteis. Ajudam-me a medir cada passo com alguma atenção, para da próxima vez que caminhe sozinha, não me estatele no chão em três tempos.
Talvez toda aquela (falsa) segurança que me davas tenha sido o problema. Demasiada confiança fez-me esquecer que cada um deve cuidar de si e segundo a forma que quer.
Não estou com isto a culpar-te de nada, nem a tirar peso aos caminhos que percorri e que acima de tudo escolhi. Mas se o fiz, foi porque um dia acreditei que não havia mais nada.
E foi porque exteriorizar que "está tudo ok" e sou forte para continuar com um sorriso na cara e umas ganzas em cima, é muito mais fácil do que assumirmos a nossa própria dor, e viver com os nossos erros e problemas.
E o mais importante não é remexer em tudo o que me magoou e ainda hoje dói um pouco, mas sim perceber a minha necessidade de criar à minha volta esta rede tão pouco segura. Talvez porque aquilo que tinha à minha volta no momento não fosse assim tão importante que valesse a pena proteger-me dessa queda imensa que dei e que mereci. Não digo que não.
Mas essa dor é para ser vivida por mim, não preciso que ma inflinjam de que maneira fôr. Até porque quando se aponta um dedo, tem-se 3 apontados e não me parece sequer que haja em ti ou em alguém uma especial moral para o fazer. Porque erros cometemos todos, e há muito que já me apercebera dos meus.
O mais importante é finalmente sentir que essa foi uma forma de estar sozinha, iludindo-me que não estava.
Porque na realidade não podia estar mais a afastar-me de mim do que estive.
E se sentes que precisas/queres que a outra parte de mim volte, não é mais do meu silêncio que te posso dar. E não é por cobardia, ou medo de enfrentar nada. É porque sinto que ele neste momento, diz mais do que qualquer palavra que te dirija.
E é com uma força enorme dentro de mim que te/vos digo, EU (realmente eu) estou aqui.
Pronta a enfrentar desafios, e a construir novos começos, a abrir novas portas. E a verdade é que já me pus a caminho !

domingo, 5 de setembro de 2010

contrariar




Contrariar. Um verbo que tem por norma uma conotação negativa!
E pensar que todo o significado que se prende a ele é algo tão importante e que devemos praticar na vida, da melhor forma que pudermos e soubermos.
É claro que criamos rotinas que são positivas e nos permitem organizarmo-nos e realizar tarefas que nos levam a atingir objectivos que são importantes, mas há rotinas que se prendem a nós com uma força tal e que para conseguirmos aproveitar alguma alegria, e exteriorizar muito do que se passa "cá dentro" é preciso contrariar.
Na física, aprendemos que quando existe uma força a puxar-nos em determinada direcção, é necessária outra num sentido contrário para que o corpo sujeito à mesma, não se deforme, não entre em movimento e inclusivé é preciso que esta seja de uma intensidade maior do que a primeira, porque se isto não acontece o corpo ficará parado (em equilíbrio de forças, como aquelas balanças antigas e que ainda se veem).
Pois bem, se na vida pretendemos imprimir em nós um movimento diferente, uma força que não nos puxe para baixo (e não falo do peso, isto para os mais literais) é preciso contrariar. E ser do contra! Não com o Mundo que me rodeia, comigo própria.
E a física prova que não é fácil! É preciso uma força de intensidade maior para contrariar a que nos "puxa" para baixo... Mas quando a encontramos e começamos a sentir-nos em movimento contrário é tão bom que dá quase vontade de nos deixarmos levar. Mas é preciso continuar, ou então a gravidade (ou as distracções da vida, dependendo da interpretação) voltam a tomar conta de nós. Já pensaram que por vezes contrariar pode significar sermos exigentes connosco próprios?