quinta-feira, 31 de março de 2011

vives em mim

Mais um dia igual a tantos outros. Mais horas para viver na angústia de um adeus forçado, um adeus para sempre. Tal qual um autómato, vesti-me para sair. Chovia, lá fora. Cá dentro, também. Já na rua, passei o meu olhar pela cidade, que já tinha despertado de um sono profundo. Tu não. Já não te podia sentir, perfeita, a passear no teu passo miúdo pela cidade. Já não podia olhar-te nos olhos e dizer-te um "amo-te" profundo e sincero. Simplesmente não estavas. Tinhas desvanecido como o nevoeiro da manhã, para trazer um dia de Sol. Mas os dias que me trouxeste não foram de Sol, mas sim de chuva. Chuva que se entranha dentro de mim, do meu coração. O fluxo da multidão andava no sentido contrário ao meu. Eu buscava apenas o teu sorriso alinhado ao meu, eu buscava apenas mais um dia que me deixasse absorver todos os momentos que se incrustram na memória. Já não vives no Mundo onde a violência é gratuita, onde o olhar é cinzento e desprovido de cor. Onde as pessoas deixam as outras caír e os sonhos são ditos demasiado baixo para serem ouvidos. Debaixo da terra, onde a luz não chega... mas sinto-te tão perto de mim. Quase que oiço o teu coração pulsar sobre o meu, ao mesmo ritmo, uníssono. Deixo-me agora atirar ao chão, como as últimas palavras que trocámos. Percebo hoje que não são as últimas, mas as primeiras de todas. A multidão apressada desvaneceu-se. Só estamos naquela rua tu e eu. Vestes um vestido branco, da cor de uma madrugada que se apressou a chegar. Dás-me a tua mão. No instante em que estas se tocam um sopro agudo percorre-me o corpo. Estás cada vez mais perto. E tão longe. Dançamos à chuva uma dança quase sem fim. Os pés entrelaçam-se no chão a um ritmo compassado. As cartas que trocámos gritam-me agora aos ouvidos as palavras que dissemos um ao outro. Palavras bonitas que me preenchem e a ti também. A chuva é cada vez mais torrencial e intensa. Abraço-te com toda a minha força. Progressivamente, deixo de sentir o teu corpo. Não te vejo mais. Onde estás ? A resposta a esta pergunta só chegou hoje, um ano depois de tudo o que aconteceu. Estás aqui. Comigo. Vives em mim.

2 comentários:

  1. life isn't about waiting the storms to pass, its about learning how to dance in the rain :D

    e assim o bom da pessoa flui-se e ganha se dinâmica!

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  2. o que vale é que «este autómato» tem algo de muito humano.

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