quinta-feira, 26 de novembro de 2009

telesubjectiva 1

Tal como o vitral, a nossa alma devia ser simultaneamente translúcida e colorida.

(A minha objectiva foi subjectiva em Madrid (Páscoa 2009))

domingo, 22 de novembro de 2009

deste lado da janela


(2007, A.G. pela Leo)

E mais uma vez, finge que vive.
Perturbada pelo silêncio de um rádio estragado que emite ruídos que mais parecem gritos acumulados. Sentada no quarto, de caneta em punho, deixa transparecer no papel as palavras atabalhoadas que lhe escorrem pela caneta abaixo.

Por um só momento fecha os olhos e sorri.
As frases que se lhe atiram na alma, as pequenas palavras que a perturbam.

E no tecto vê uma mancha que se desdobra como bolas de fumo que desvanecem. Chega a questionar se enloqueceu.
Tantas pessoas que passam, confirma.
E para quê?
O desgosto do absurdo invade-lhe o espírito.

Demove-se de quase tudo e deseja abstraír-se por um momento. Mas não consegue. É simplesmente demasiado difícil.
A solidão amedronta-a. Rodeada de memórias, é a solidão que a assola. E a dúvida e o medo.
Deseja ser outro ser. Talvez um insecto que voa e observa tudo de forma diferente. A questão é essa. Ver tudo de forma diferente. Outros olhos, perspectivas melhores. Sonhos que brilham em frente.

Supostamente para alcançar isso, não era preciso ser um insecto.




( 8/9/9)

sábado, 21 de novembro de 2009

Poema do Esclarecimento

"todos fomos irmãos, hermafrodíticos como ostras
conferindo as nossas pérolas negligentemente

ainda ninguém tinha inventado a propriedade
nem a culpa nem o tempo

víamos as estações passar, éramos cristalinos como a neve
e fundíamo-nos suavemente em novas formas
enquanto estrelas giravam à volta das nossas cabeças

não tínhamos aprendido traição

os nossos eus eram pérolas
irritantes transmutados em brilho
e oferecidas negligentemente

as nossas pérolas tornaram-se mais preciosas e os nossos
sexos estáticos
a mutabilidade fez crescer uma concha, inventámos
línguas diferentes
novas palavras para novos conceitos, inventámos
despertadores
sebes lealdade
mesmo assim... ainda agora... fazendo uma ficção na
comunhão infinitas percepções
recordo
que fomos todos irmãos
e ofereço negligentemente"

Lenore Kandel, Antologia da Novissima Poesia Norte Americana

Bastante poderosa e explícita, a poesia contemporânea, brinca com as palavras contextualizando-as de forma a evocar realidades abstractas, do inconsciente que se enquadram no objectivo do poema.
Foi na década de 50 que esta surgiu, começando o movimento na Costa Ocidental em Boston, Black Mountain e Nova Iorque, especialmente com a poesia de Whitman, que aboliu o intelectualismo dos anos 30 e 40 rejeitando totalmente a poesia académica transformando-a numa escrita criativa e totalmente nova, alcançando novas concepções de poesia.
Estas concepções desenvolveram-se em paralelo com o Jazz e o Expressionismo Abstracto.
Pessoalmente, gosto bastante deste tipo de poema, mas era positivo que partilhassem opiniões e interpretações que fazem dele.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

simple touch

O que eu queria amar-te

Para um poema, apenas...

Emoldurar-te (comigo)

No intemporal e perfeito

quadro das palavras.

E contigo, criar arte.

Pôr-te num poema,

Verbalizar-te

Respirar-te

Encontrar-te

Possuir total liberdade de escrita

sem obrigatoriedade

de ser sintética e clara.

Colocar-nos naquele verso exacto

onde explorávamos o poder mágico

de um poema sem métrica, sem regras

e de um amor, pela poesia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

musicaloucura

Não será descabido observar que a música nos torna loucos, por vezes, no melhor sentido da palavra. Deixa-nos com uma sede insaciável de criar, mais e mais, de não parar de reinventar novas formas de comunicar através dela. Num estado de êxtase eufórico.

Como prova disso fica o cenário de quatro adolescentes no Ikea a experimentar copos, com a garrafinha de água atrás para comprar aqueles que imprimiam o melhor som. Fica a brincadeira do zumbido de cristal no elevador, que fez ponderar aos velhotes típicos hipocondriacos se realmente estavam esquizofrénicos ou não.

Momentos. Tudo pela música. Imaginada e nova, agora na forma de cristal transparente e agudo meio vazio ou meio cheio, prontinho a engolir (ou não). Mas a música é isso mesmo!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Passiva

Passividade, num pedaço de tela que se divide em mil tons cada um dele cuidadosamente separado como uma micro ilha solitária, rodeada de um mar gélido e agitado à sua volta.
Um soprar de vento que passa e que arrasta consigo folhas.
Estas são cada olhar indiferente, cada resposta que ficou por ser dita, cada alma que não se manifestou e se deixou levar pela corrente energética de uma multidão apressada, autómata.