segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

céu azul

Porquê? , perguntei-te.
Talvez soubesses, a razão, aquilo que faz mover cada engrenagem daquilo que sentimos. Desde cedo achei-te com melhor compreensão que eu para essas coisas.
Porque é que às vezes sinto que vou rebentar, e que não cabe dentro de mim o que sinto? Porque é que pego num livro, e nesse instante quero logo saber o final?
Dá-me razões, pedi-te.
Sem mais nem menos, o Mundo gira. Sem mais nem menos a minha cabeça anda às voltas, para me perceber a mim própria.
A tua resposta foi fluida, foi a melhor que pudeste dar. Agarraste nos dedos e começaste a deixar saír de ti uma melodia única, fantástica.
As palavras complicam, disseste. Alimentam a memória, que alimenta a saudade.
Nunca me hei-de esquecer... As palavras efectivamente complicam.
Para quê querer nomear sentidos que são impossíveis de descrever?
O rio corre, porque a água desce, fresca pelas suas margens.
Do mesmo modo, os sentimentos que guardo se deixam fluír sempre de dentro para fora.
Quando é ao contrário, guardo no meu interior uma bola de neve pronta a criar uma avalanche a qualquer instante. Muro coberto de tijolos , prontos a cair.. a desmoronar.
Hoje estava triste, mas soubeste alertar-me de que o céu estava azul, e quando olhei e vi a cor turquesa por cima do meu olhar, fiquei convencida que devia sorrir. Sorri. Sorriste. Sorrimos.

domingo, 30 de janeiro de 2011

nuvéns

Esvoaça no céu um fumo negro, de um combóio. Este avança, na linha férrea a uma velocidade estonteante... Atrás dele corre um crocodilo de um verde esmeralda, esfomeado para o apanhar. À volta vemos uma cidade, toda branca, alguém de dimensões maiores, a polvilha de neve como se de canela para pastel de nata se tratasse.
A expressão do homem que polvilha neve, é a de alguém que tem fome, talvez não coma há alguns dias, e tem estômago até para um crocodilo.
Ao longe, dois dragões dão um beijinho. Estão apaixonados. Eu sei porque consigo ver corações à volta deles, tal é o amor que proclamam. Têm fogo dentro de si, e não é por serem dragões , mas pelo fogo da paixão cujas labaredas amarelas e laranja forte crepitam.
Uma luz ... de um farol, talvez que dá direcção a todos os coelhinhos perdidos, e que têm de atravessar a linha de combóio sob dois graves riscos: levar com o combóio ou serem comidos pelo crocodilo, que desviando o olhar do combóio vislumbra nos coelhos um óptimo aperitivo digno de gourmet.
Dentro do combóio acenam pessoas, talvez com a esperança de eternizarem uma despedida, pô-la no cantinho da memória onde o tempo não chega e se acende a luz do coração. É possível ver na expressão deles a saudade que sentem ao partir, e por outro lado a felicidade de uma nova estação de chegada, de um novo destino.
Ao cimo dois olhos gigantes, preparam-se para chorar. "Desgosto de amor", palpitas tu.
Mas a mim parecem-me olhos de solidão, aquela desesperante, que nos faz sentir os únicos no mundo. Começa a chover.
As pessoas do combóio fecham as janelas, e tiram para dentro os lenços brancos da despedida. É assim, são obrigados a conter aquele sentimento desesperante dentro do combóio, dentro de si próprias.
A mãe coelho abre o guarda chuva às bolinhas, segurando nele para proteger os filhotes e o crocodilo delicia-se com um bom banho, esquecendo a necessidade de almoço.
O gigante vai para dentro, parando a neve polvilhada de caír sobre os vários arranha céus da cidade.
E rapidamente tudo se desvanece como pó.
"Foi bom ver isto tudo" , pergunto-te.
"Sim, é sempre bom observar as núvens "

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Flor amarela

Pensei nesse dia cinzento
Com chuva e tristeza
Frio gélido e vento
E a cidade acesa.
Pensei nos rostos assustados
Nas folhas pisadas
Nos corações calados.
Pensei na violeta amarela
Entre as outras flores,
Perdida na tela,
Que afinal tem outras cores.
Ficou longe de toda a gente
Só por ser amarela,
apenas por ser diferente
E olhos afiados se puseram sobre ela.
Todos nascemos iguais,
uma semente astuta na terra fresca,
uma união que nos faz especiais.
Da mesma água nos alimentamos
E mesmo sem as ver, temos raízes.
No céu, na terra ou no vento
Segundo aquilo em que acreditamos.
Nem todas as flores cantam,
algumas porque são envergonhadas.
Outras encantam,
outras porque não são afinadas.
Mas cada uma delas é diferente
Perdidas pelos cantos da cidade.
Pisadas e humilhadas pela gente.
E têm a uni-las amizade?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

pedras no sapato

A casa da saudade chama-se memória. Às vezes fecho os olhos por segundos e sinto saudade. Saudade do que fui e ainda parte de mim é , mas saudade também dalgumas escolhas erradas que fiz. Depois um enorme porquê surge-me na mente e uma resposta rasgada vem também: porque já foste feliz assim.
Pergunto-me agora se era felicidade o que sentia.
No entretanto aprendi que a linha entre felicidade e ilusão é muito ténue. E quando se voa em ilusão, a queda é complicada.. aprendi isso porque já a experimentei, e aqueles que eu dizia meus amigos não estiveram lá para me ajudar a levantar.
Mas no meu coração que afinal era de papel, de frágil porte e facilmente rasgado por mim própria, comecei a deixar cair pequenas sementes de certeza, atiradas por aqueles que me amam verdadeiramente.
Essas sementes estão a crescer, e olhar para as plantas que estão a dar e para os frutos que virão (espero eu) no futuro faz-me dizer a mim própria que não tenha saudades. "Aquilo não era vida". E parece triste, mas ainda hoje preciso de dizer a mim própria que aquilo não era vida.
É dificil acenar com a mão meia trémula e dizer adeus, mas mais dificil é saber qual o fim de um caminho pelo qual se optou. Hoje sei que perdi algumas coisas, mas sei também que aquilo que perderia seria muito mais dificil de dizer adeus.
Gostava de dizer que apaguei da memória muitos dos momentos passados , mas cabe-me dizer a mim própria que não posso. Não podes.
Eles fazem parte da minha experiência, da minha vida, do meu crescimento. São minhas. Não posso dizer que sejam tesouros com os quais guardo com cuidado, mas pequeninas pedras no sapato , que por mais dolorosas que sejam, não posso tirar.
Acho que é a primeira vez que escrevo sobre isto, que dou o meu testemunho pelo que me aconteceu. Gostava de poder transmitir essa mensagem a todos os que já pensaram como eu, já foram como eu, ou de certa forma acreditam que é possivel viver assim, numa ilusão constante. Digo de experiência que não é.
Que chega a uma altura em que os dias não são dias, é mais tempo que passa e que se olham ao espelho e se veêm assim,; que chega uma altura em cavam o mesmo buraco em que se deixam caír.
E eu tive a sorte de ter mãos prontas a levantar-me, ainda que pudessem não ser as de quem eu esperava. Mas elas tiveram lá, prontas a dar-me provas de uma amizade sólida, verdadeira, fora da ilusão em que vivia.
Hoje , aprendi a dar valor ao que é real, autêntico, genuíno. A dar valor a mim própria.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Colhe o dia porque és ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

voar

Por uma única vez só, apetece-me hoje tirar os pés da terra e entrar no mundo onde a magia impera. Soltar-me e dançar com o vento, deixar a música entrar em mim e voar.
A imaginação salta-me na cabeça. Constelações de alfabeto, noites escritas a giz, pastilhas elásticas de aniversário e domingos de futebol.
Encaixo-me na gaveta dos sonhos, perfeito encaixe,como puzzle por terminar. Com mil peças, retalhos de coisas que se juntam e formam uma só. Como eu gostava de ser contigo, um puzzle que se une e forma um só.
Já dentro da gaveta, onde apenas se sente o calor da noite e o vento não chega deparo-me com a Lua.
"Olá."
Que bom que era se ela me desse um pouco do seu brilho. Nunca sonhei ser estrela, mas sempre gostei de brilhar. Sem resposta, continuei a vaguear pela gaveta, até que acordei, mas com mais brilho. Afinal a Lua lê os pensamentos.