quarta-feira, 30 de junho de 2010

be stupid


BE STUPID! Sai de dentro das linhas e faz tudo para que te chamem estúpido. Se isso acontecer é o elogio pelo teu espetáculo. Saíste das regras, conseguiste, e o julgamento do olho normal, dentro da linha, considera-te estúpido, desalinhado. Quer isso dizer que te libertaste. Sem medo do rídiculo.

Libertaste os pensamentos, extravasaste na criação e sobretudo não te levaste a sério. Nunca te leves a sério. Isso é coisa de gente esperta, e de espertos já está o Mundo cheio. Be Stupid e dá algo novo. Afinal, ser estúpido pode ser só ser consciente de que nunca se tem nada a perder. Ser estúpido é correr riscos, e para correr riscos, embora sendo-se estúpido, é preciso ser-se bravo. Isto no caso de se ser estúpido por consciência e confiança, e não por pura falta de noção das circunstâncias.

Be stupid. Sê estúpido como um brilhante palhaço. Sê estúpido como só tu mesmo, ou entra numa de revivalismo à atitude trash com inspiração jackass e quando vires um par de calças que valém no mercado 3 centos de euro, na rua, dentro de um paralelo de gelo, a título de exercício, arma-te de picaretas, maçaricos, martelos e uma grande vontade de pura diversão. Sem troféus. Apenas desafio ao engenho e boa disposição. É um jogo, e embora o prémio não seja a paz de espírito, levam-se umas calças de ganga e mais tudo o que se pode ganhar com a experiência de um dia ter perdido a vergonha, o limite e o risco não tendo importância o motivo, mas sim a consequência. BE STUPID.


Célia F.

terça-feira, 29 de junho de 2010

ses e certezas


Noite que avança lá fora, cheia de Lua… por aqui, um quarto quente, erguido pelas paredes das memórias. Olhos abertos, despertos pela música que vai surgindo por entre os lençóis revoltos de tanto me virar para um lado. Para o outro. À procura incansável daquele no qual fico mais confortável.
Nesta pesquisa incluo as memórias entranhadas na parede do meu quarto, nas quais constam imagens e pequenos momentos guardados aos quais volto, por vezes involuntariamente. Imagino como seria se tivesse sido diferente. De algum modo diferente… Estaria agora a dormir tranquila, enquanto a noite se agita lá fora?
Palavras suspensas, agarradas por um “se”, condição que as mantém pendentes e as impede de cair e se desvanecer… Já se teriam desvanecido, as palavras se tudo fosse diferente.
Mas depois, interrompo este pensamento, como se acordasse para a realidade de que quando caminhamos em certa direcção, os acontecimentos dirigem-se em gradação, em escala para nós e por vezes só quando o termómetro está prestes a rebentar com as temperaturas altas que experimenta, é que nos apercebemos que é hora de voltar para trás.
E depois, tanta é essa vontade, que tentamos a toda a custa, procurar nas nossas memórias recentes, momentos, perdidos, fragmentados em que nós próprios fugimos a estas direcções que hoje nos espezinham e humilham. E estes momentos, são meras suposições, condições.. palavras sempre suportadas por “ses”. Eles são perigosos, porque são incertos.
Mas já estão muitas silvas desbastadas, há muitos espinhos que não magoam mais. E a cada dor que se põe fim, nasce uma pequena semente de certeza : a certeza de não querer mais aquela dor tão forte para nós.
Esta semente, se bem cuidada, se criadas por nós as condições certas, cresce, e começa a despertar em nós o caule forte da certeza, que vai dar frutos..


domingo, 27 de junho de 2010

História de uma Papoila III




E assim foi, com a sua vontade de chegar ao topo, Papoila subiu com uma genica e ousadia incríveis, aquela que sentimos quando queremos alcançar um objectivo com tanta força, que nos esquecemos do medo, do perigo e do cansaço.

À medida que agarrada às pedras escarpadas, trepava a montanha com suor no rosto e os joelhos massacrados, sentiu todo o seu corpo a ser engolido por esta montanha tão alta e especial.

Assim que ultrapassou a camada de pedra, um Mundo de cor e movimento se criava em frente aos seus olhos. "Devo estar a delirar do calor. O melhor é fechar os olhos" pensou. Aquela interpretação do que lhe acontecera era inútil,pois ao tentar fechar os olhos via exactamente o mesmo, como se estes continuassem como estavam.

Um pouco assustada, mas ao mesmo tempo deliciada apercebeu-se que se encontrava numa espécie de feira popular bastante original e no meio de uma floresta onde as árvores estavam carregadas de frutos azuis e cor-de-rosa choque e cujas folhas vermelhas balouçavam no cimo de troncos amarelos. O céu tinha um tom lilás, e o Sol, ainda mais abrasador era de um verde escuro profundo. Este era suavizado por uma brisa constante e amena, que quando passava, rasgava a atmosfera de um prateado brilhante como se fossem pequenas estrelas cadentes, mas a caír na horizontal.

A fome de todo o esforço que já fizera até ali, apertava-lhe o estômago e por isso provou um daqueles frutos estranhos da árvore amarela. O sabor era fantástico: um misto de coca-cola com baba de camelo e sorvete de limão. Apesar disso, depois de provar aquele fruto, encontrava-se numa daquelas rodas gigantes que existem nas feiras populares, mas esta estava segura por raízes. Durante a viagem sentiu uma vertigem enorme e um arrepio estridente que lhe percorreu todo o corpo, como se estivesse a saltar por entre vales de grande profundidade num voo plano. Subitamente, todas as raízes que seguravam aquela diversão, desfazem-se em mil pedaços e papoila encontra-se em queda livre. Fecha os olhos com toda a força que pode e não consegue conter um grito de desespero: "AHHHHHHHHHHHH!"

O seu corpo frágil de flor de primavera encontra-se durido e dormente. Assim que se levanta do chão, olha à sua volta e encontra-se deitada no chão do seu quarto ao lado da sua cama.

Afinal a queda não tinha sido assim tão fatal. Mas aquela aventura tinha sido muito mais do que um simples sonho, conseguia senti-la vívida e natural em si.

E a partir desse dia, tornou-se uma flor ousada e atrevida, capaz de correr rumo ao desconhecido, com uma persistência e vivacidade únicas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

História de uma Papoila II





"Contraditório, pensei. Protejo-me dentro de mim mesma como uma Polegarzinha e pareço-me cada vez mais longe de mim. Pequenina como uma Polegarzinha".

Dias passaram e tentou calar aquela voz que surgia permanentemente dentro de si. Tornava-se ensurdecedor.

Era preciso saír daquela cúpula onde se protegera, para olhar o Mundo e apalpá-lo, cheirá-lo, encher-se dele.

Conhecer as montanhas e os vales, em vez do seu seguro mas já conhecido caminho plano.

Um dia, Papoila acordou e decidiu-se. Pegou numa pequena mochila com tudo aquilo que lhe pareceu precisar: algum dinheiro que tinha juntado, mudas de roupa e o canivete suiço que o avô lhe tinha dado. A manhã estava calma, o céu de um azul brilhante, limpo de núvens marotas, cheia de Sol e com um vento suave com cheiro a verão e calor.

Partiu rumo a uma grande montanha que existia a alguns kilómetros da zona onde vivia. Passou campos nos quais as searas se agitavam, produzindo um sussurro agradável. Passou em poças lamacentas, por entre as quais pequenos riachos se apressavam também no seu trilho. Pensou em como gostaria de correr assim, tal como um rio.. mas depois lembrou-se que também estes se deparam com pedras afiadas, e barragens dominadoras e apagou-se esta imagem da sua cabeça.

Finalmente era capaz de ver a montanha, mas começava a ficar tarde. Instalou-se junto a uma árvore que se encostava a uma rocha alta que a abrigava do vento e lhe permitia fazer fogo sem que este se apagasse com a humidade que caía à noite. Aconchegou-se na roupa que trouxera, e comeu algum pão que trouxera. Assim que se deitou no chão de ervas macias, olhou o céu de um preto imenso e profundo, cheio de pontos brilhantes e fortes e adormeceu a dar nomes a todas aquelas estrelas, que provavelmente já o teriam, mas não se importavam de certeza de ter um novo.

A luz do Sol entrava por entre os galhos com uma força incrível e marcante. Toda a sua vivacidade acordara a pequena rapariga adormecida que pela energia que aquele sol tão brilhante lhe trouxe, levantou-se e caminhou rumo à grande montanha, e pensou para consigo " hei-de subi-la com uma tal vontade de lhe chegar ao topo que me ponho nas alturas num instante!". E assim foi, mas Papoila não imaginava que a subida que a esperava era a mais inesperada e inesquecível que alguma vez teria..

quarta-feira, 23 de junho de 2010

História de uma Papoila I



Até àquele dia, Papoila nunca fora "fiel" ao seu nome, como uma flor de pétalas frágeis e fugidias, a baloiçar ao ritmo do vento e a espalhar as suas sementes pelos campos perdidos e vales escorregadios.
As suas lentes eram dois olhos negros, firmes e atentos com os quais via o Mundo à sua peculiar interpretação.
Olhava-se ao espelho e era incapaz de reconhecer em si mesma um rasgo de paixão cujas papoilas habitualmente emanham com o seu encarnado garrido e exuberante. Em contrário, esta rapariga tinha uma discrição e organização quase irrepreensíveis.
Estas características da Papoila eram consequência da vida que sempre tivera, protegida de ventos inesperados, fortes e perigosos.
Tudo o que tinha era uma vida plana e reta. Para ela, a caminhada seria sempre desta forma: uma estrada sem relevos (altos e baixos), sempre comprida e como tal bastava dar alguns passos em frente e percorrê-la.
Vivia sem grandes paixões.
Sentiu claro, as naturais e típicas atracções adolescentes, mas foram sempre encaradas com uma grande tranquilidade, um olhar realista e não romanceado, quase estranho para a sua idade, mas que lhe permitia ter uma grande distância de tudo o que podia fazê-la sofrer, pela falta de apego a estes fraquinhos passageiros e aborrecidos.
Agradavam-lhes os traços que a faziam sentir-se uma papoila a crescer na estufa com o Sol, a terra, a água ideais; sem excessos trazidos pela chuva ou por um clima menos agradável.
Papoila criara uma capa que a protegia, mas que também a afastava das pessoas e da loucura de sonhar.
À medida que se deixava acariciar mais por ela própria, aninhar-se na sua confortável maneira de ser tão certa e segura, fugia do Mundo para o seu, o que a distanciava agora dos outros, mas também de si.

(to be continued)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Asas

"Vê mais longe , a gaivota que voa mais alto"
palavras "oferecidas" por alguém que quer verdadeiramente ver-me a voar. A voar não pelas direcções que o vento sopra, mas com a sua firmeza e serenidade. Com a sua discrição que se ouve, mas não se vê.
Antes de iniciar o caminho é preciso escolher um bom calçado, compreender até que ponto estamos confortáveis com o que temos, mas acima de tudo ter a certeza que vamos poder ter quem nos ampare se caírmos, ou mesmo impedir-nos de caír quando subirmos uma rocha escarpada, com o vento contra nós.
"(...) ultrapassado o Tempo e o Espaço o que nos resta é o Aqui e o Agora". E o que é o aqui e o agora?
Para mim o Aqui e o Agora era o aproveitar o momento, sem complexidades, deixar-me levar, largar a rocha escarpada que subia contra o vento e deixar-me libertar ao sabor dele, deixá-lo direccionar-me para um destino desconhecido e perder o rumo, o ponto de chegada. E o de partida.
Aqui e Agora é muito mais precioso, é o tesouro que guardamos dentro de nós. O destino que traçamos e que fica mais claro para nós a cada segundo da caminhada, ainda que muitas vezes olhemos para tras, para a distância a que estamos do chão, (sem perceber que ela reflecte a altura a que já estamos) nesta dura escalada do dia-a-dia e nos apeteça largar a rocha e descansar os músculos, a cabeça, a vida.
O Aqui e Agora, são as nossas duas verdadeiras asas - as feitas de penas não nos fazem voar mais alto, ver mais longe- são elas o calçado confortável que nos faz sentir bem na caminhada mas também a bussola que nos impede de nos desorientarmos.
Há sempre pontos de encruzilhadas, em que estas duas asas, (por vezes ainda frágeis como asas de borboletas que mal são tocadas se paralizam) têm de voar segundo a intuição. Mas esta também se aperfeiçoa com o tempo.
Este é o voo que quero. Para ver céus azuis arroxeados pintados de fim de tarde e de Verão, partilhá-los com gaivotas cujos voos se fazem do planar atento junto do meu.
E durante o caminho ser capaz de olhar para as raízes que germinam em mim, não para me aprisionar mas para me mostrar as flores e frutos que me podem dar; ser capaz de sentir o cheiro da terra na qual os meus pés se enterram, sempre a sentir que por vezes há um vento quente e calmo capaz de me dar engrenagem para o caminho. E que tenho a grande árvore de copa larga e tronco antigo cujos ramos me aconchegam com as folhas fofas e frescas, e que apesar de muitos "ventos" lhe agitarem as folhas, está firme e ali e mesmo que os meus braços não a cubram toda, posso abraçá-la quando quiser.