sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

feliz natal

Lá fora o vento precipita-se contra as árvores com uma força avalassadora. Está frio para saír de casa. Está-se melhor envolto no calor da família e dos sorrisos alinhados pelo reencontro que nos traz o natal. Vivem-se momentos em pleno junto dos que mais gostamos. E é também nesta época que recordamos aqueles que, sem uma família passam os natais de forma diferente.
Por outro lado o consumismo entra dentro de nós quase sem querermos e a confusão instala-se nas ruas e nos centros comerciais. Dou graças a deus por ser aquela "menina certinha" a quem no dia da consoada apenas faltam uns guardanapos coloridos e um sumo para o dito jantar. Apresso-me para ir buscá-los e deparo-me com o agradável espírito natalício do atropelo e confusão.
Os meus votos para este Natal é que as luzinhas que simbolicamente colocamos na rua iluminem também os nossos corações e que nos tornemos apenas bons uns com os outros. Que partilhemos sorrisos entre nós e olhares de conforto.
Espero também poder desfrutar dos momentos em família que esta época proporciona e poder trazer algo de novo para os meus poucos (mas bons!) leitores desejando-lhes um natal de paz, serenidade, muita felicidade e partilha em família ... e claro uns bons docinhos e prendas no sapatinho !

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

o tempo

A cada tic-taquear do relógio apressamo-nos mais para o nosso objectivo, e rendidos, paramos. Mas não por muito tempo pois é dele que somos escravos.
Os ritmos perdidos guiam a nossa mente, reinam sobre nós, e nós rendidos, paramos. Mas não por muito tempo pois é dele que somos senhores.
É preciso olhar o horizonte e ver a linha ténue em que podemos escrever linhas nunca antes pensadas.
É preciso olhar as árvores e perceber que as suas raízes se alimentam das folhas que já morreram e é com estas que crescem.
É preciso olhar a areia e deixar com ela moldar os nossos pés, pés com os quais caminhamos e alcançamos o nosso rumo.
Andamos demasiado apressados, para escutar, porque não basta olhar. É preciso ver.

Fernando Pessoa e eu

“Há no firmamento
Um frio lunar
Um vento nevoento
Vem de ver o mar “

Fernando Pessoa


A lua pousara-se no céu com a suavidade de uma pluma. O vento gélido fazia a pluma voar e girar e a lua dançava ao som de um sopro violento.
Eras tu e eu, naquele girar profundo que só o mar sabia em segredo. O nosso está fechado a sete chaves, como se de um tesouro se tratasse. Um tesouro só nosso que ninguém poderia encontrar.
O mapa escreveste-o num código impossível de decifrar por alguém que não nós.
Só a Lua estava presente no dia em que me beijaste por baixo de um céu estrelado.
De seguida, de mãos dadas decidimos dar nomes às estrelas e familiarizar-nos com as constelações. Dançámos com a lua entrelaçada nos braços e as estrelas rodopiavam à nossa volta com a música que emanava dos nossos corpos. Apesar disso a lua estava ali sem o querer, queria ver o mar, seu longo e eterno amado que de tanto gostar dela a reflecte nas suas ondas.
Assim, tu , reflectes em ti cada passo que dou, cada palavra que proferimos juntos a sussurrar para que ninguém as decifre, porque são apenas minhas. Tuas. Nossas.

Margarida Cunha

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cogumelos

Na estrada sinuosa da Serra de sintra, desbravámos caminho em busca de fungos comestíveis e apetitosos. O emaranhar de árvores que deixava a luz entrar pelas frestas de folhas,criava na atmosfera um lugar colorido e luminoso.
Entrámos por Monserrate e subimos os caminhos. Os chantarelos subiam pelas raízes das árvores, cresciam por entre buraquinhos de caruma ainda húmida da noite anterior. A manhã passou como um combóio rápido, velozes carruagens que passam umas depois das outras, unidas.
O Outono pintou a serra de laranja e amarelo, e Monserrate ao longe deixa-se brilhar por entre as árvores e ramos. E lá ao longe destaca-se no azul do céu, grandioso.
Enchemos os cestos de cogumelos e o coração de novos amigos. E todos juntos ganhámos conhecimento e amizade.
Gostámos da manhã, que acabou em grande a comer os tais fungos (comestiveis e não toxicos, será?), e em animado convívio , proporcionando sorrisos e brilhantes olhares.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

mix de músicas e escritas..

"Sou a mariposa bela e airosa que pinta o mundo de cor de rosa". O mundo de sonhos que se enquadra no imaginário de arco-iris e cores fortes. Combóios de caleidóscopios e bombons para cães. Um piano do qual sai uma música indefinida que nos faz dançar freneticamente...
"És um marujo da banheira.. já se vislumbra uma desgraça.. és um patinho de borracha" . És um boneco de neve mascarado de fantoche, um espanta-espíritos boneco de porcelana e não é por isso que deixo de gostar de ti. E esse teu chapéu de palha mais faz lembrar um espantalho. És bonito por dentro e isso é o que mais importa!
Um gira discos que gira. No relógio já marca a hora do nosso encontro. Sinto borboletas no estômago e flores na barriga.. " A noite vinha fria negras sombras a rondavam". O frio gélido do vento penetrava-me os ossos , mas o calor do nosso encontro superava-o. "e acaso nos tocar o azar, o combinado é não esperar, que o nosso amor é clandestino".
"Anda, desliga o cabo que liga a vida a esse jogo. Joga comigo um jogo novo" .. Porque afinal a vida é um jogo em que o fim é a morte. Nela passamos várias etapas, cada uma mais dificil que a outra, mas os bónus são cada vez maiores e melhores. E é isso que nos faz acordar cada dia e darmos graças por estar vivos... " Sai de casa vem comigo para a rua, que essa vida que tens,por mais vidas que tenhas é a tua que mais perde se não vens!"
Mas há dias de chuva e vento em que acordamos sem vontade. Dias em que as torradas saem queimadas e o dia simplesmente não parece dia, dias cinzentos, sem cor. Dias sem beijos debaixo de chuva, sem danças e movimentos que façam o dia valer a pena. " Um passo em frente dois atrás". Dias em que o caminho se faz como o caranguejo, para trás... "Não te quero dar mais esperança" Dias em que amores são terminados... " Mas se tu dançares comigo, e aos meus passos dares sentidos não me alegras mas conquistas" .. Mas se na dança do adeus nos envolvermos, a despedida não é tão dolorosa, o movimento embala-nos em sonhos passados e presentes.. em que o dia já tem mais cor e felicidade.
"Tu não tens a noção de mim. Quantas vezes queres e não tens ?"
O querer é tão forte que nos embala numa espiral impossível. O problema é não termos noção dos outros que nos envolvem neste jogo da vida. Gostar dele é tão dificil, e tão impossivel que nem vale a pena querer tanto o querer, é preciso parar o querer que queremos?
"Ele passou por mim e sorriu, e a chuva parou de cair" . No instante em que ele me olhou foi como se um super guarda chuva se pusesse em cima de nós. Tudo parou. Apenas estávamos ali os dois. O entulho saiu dos lagos, e os graffitis sairam das paredes. Aquele bairro urbano tornou-se num bosque onde os pássaros cantaram e as flores despontavam. As folhas de multiplas cores caiam sobre nós e no metro apertado o ar fluia colorido e cheio de cheiros a bagas silvestres. O puto do cão com o seu acordeão fez a música entrar no metro no qual todas as pessoas dançavam. Afinal estávamos num baile todos vestidos a rigor. E dançámos os dois. Foi bonito e inesquecível. O que o amor faz....


Texto elaborado com excertos de músicas de Deolinda.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Bailado do Quebra Nozes

Numa altura em que a cultura está cada vez mais a precisar de novos "adeptos" e renovado cartaz, com o uso das capacidades criativas dos seus autores e daqueles que para ela trabalham, é necessário pensarmos como podemos apoiar a actividade cultural da nossa zona de residência? E como ? O primeiro passo será informarmo-nos acerca da mesma.
Hoje em dia a lógica de mercado é vender, e temos de procurar os espetáculos que não nos dão aquilo que queremos ver. Se vamos ao Teatro, por exemplo, é para aprender algo novo, para captar uma mensagem, e se esta vem simplista e a dar-nos apenas momentos agradáveis e gargalhadas, passamos um momento divertido mas não passa disso. É preciso compreender que para transmitir uma mensagem é preciso ser controverso, e por isso desagradável por vezes. Às vezes precisamos de ver o que não queremos, para perceber que aquilo sempre esteve ali, que aquela mensagem subjacente é o que devemos olhar atentamente para podermos fazer alguma coisa!
Hoje vou ver um bailado, no centro cultural Olga Cadaval, em Sintra. Como sempre antes de qualquer espetáculo, estou ansiosa e curiosa pelo que vou ver. O mais interessante é que este bailado está composto em várias versões e se nunca acaba é porque as companhias de bailado sabem renová-lo, recriá-lo, remexer nele para torná-lo em algo novo e mais uma vez pronto a ser visto. Afinal reciclar desta forma não é o que de facto é a arte?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Coleccionadores de imagens


Rumo ao trabalho olham pela janela do comboio mirando cada recanto luminoso da paisagem que se altera a cada segundo que passa.
Confortável rotina, agradável à mente, conhecida. Observam cada ponto como se de um coleccionador se tratassem e estivessem a polir cada peça da colecção.
Apelido-os coleccionadores de imagens que vão arrecadando à medida que o comboio passa e a hora vai ficando mais perto do destino. Ou o destino da hora.
Também eles se estão a polir, ao mesmo tempo que observam imaginam as ruas e os prédios bonitos bosques com frutos silvestres que caem de arbustos frondosos, ou então simplesmente observam, silenciosos, como se por ali já tivessem passado vezes sem conta. Uma expectativa concretizada, no objecto que se mira pela janela.
Fitam a memória, guardando mais um pormenor que no dia anterior ficara esquecido, deixam-na aconchegar-se numa viagem já antes percorrida, e de novo renovada.
É como se chegassem a casa e colocassem nos pés frios, as mesmas pantufas, já conhecidas e nesse momento se deixassem aperceber de mais um pormenor, criando no já esperado um pouco de novidade emergente. E tão especial
.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

não era sonho, era sintra !

A serra pintou-se de um laranja intenso e de uma humidade que deixou nas árvores altas, pequenas gotas de brilho.
A chuva que caíra durante a noite, levou a um aconchego nas mantas que já começam a saír dos armários.
O outono chegou a Sintra, onde já se cheira o bom aroma de castanhas assadas, assim que se chega ao ambiente de lufa-lufa na estação.
Com ele, as ruas esvaziam-se e nos cafés o convivio ganha vida enquanto o chá fervilha nos bules. A vila encheu-se de vento frio e chuva cortante, mas também de folhas e cor. E de uma energia tão mística e que bem caracteriza uma Sintra que é nossa.

sábado, 25 de setembro de 2010

how I wish you were here


São 5 da manhã. A aurora apressou-se a vir com um nevoeiro quase gélido. No campo, as flores recebem um orvalho brilhante que absorvem como pequenas pedras preciosas que ornamentam uma ou outra polegarzinha adormecida por entre pétalas coloridas. Vagueio na minha memória tão cheia de coisas até te encontrar a ti.

Lembro-me de alguma música que deixaste, e que quando alguma expressão ou silêncio me remete para ti, se afirma dentro de mim esta melodia tão única e sublime ao mesmo tempo, encerrada naquela tarde tão triste em que no teu carro me disseste adeus.

Depois disso, e às escondidas, os nossos olhos voltaram a cruzar-se e os nossos vultos a tocar-se como se por magia, nos unissemos secretamente e por instantes, para depois daquele pulsar tão agitado, nos separarmos de novo.

De guitarra às costas corres na direcção oposta à minha e finges que não me vês. É com uma voz quase em surdina que grito o teu nome, logo a seguir a uma chuva miudinha se instalar em nós. Na rua e em todos os espaços a descoberto.

Olhas para trás e é a correr que te apressas na minha direcção. Assim que chegas, desapareço. E tu ficas ali, sozinho à chuva, no teu sonho interminável a imaginar um regresso ao nosso beijo, ao nosso entrelaçar de corpos, à nossa paixão assolapada e quase interminável.

Seria quase fatal se nos víssemos de novo.

Em casa, sentada ao piano, tento traduzir o que sentíamos naquela altura em que tudo era bonito quando estavas ao meu lado. Tento pôr para o papel antigo e amarelado de partitura como tu eras comigo, o carinho com que nos olhávamos e tocávamos, as músicas que fizemos um dia juntos enquanto partilhavamos a vida um com o outro.

Os momentos de loucura por essa noite fora em que nos encontrámos às escondidas.

"Mas o amor é curto e deixa mossa" e foi com ela que ficámos, cada um para seu lado. Tu a envolveres-te com outras, e eu, sozinha ao piano a construir o meu futuro na escrita, e sem ti.

A aprender a consolidar o que é intenso e a deixá-lo a cristalizar apenas na memória e longe do coração. Mas o meu coração ainda bate mais depressa quando te relembro. E é com convicção e certeza que hoje toco para ti esta música ao som de uma banda com a qual já fomos quase tudo.. mas também ao som da qual nos reduzimos a quase nada.

Como gostava de, em certos instantes fazer o tempo voltar para trás and... Oh, how I wish you were HERE.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

a PALAVRA

Ainda a manhã estava de joelhos, prestes a levantar-se, dirigiu-se a mim um vulto.
Pelo andar pesado, mas calmo, jurei que devia ser alguém de idade. Daquelas senhoras respeitáveis que se aperaltam todas, mesmo naqueles dias que não saem de casa. Cheirava a pó de arroz, baton vermelho e perfume antigo, bem distribuido pelo seu corpo meio cansado e indefenido, com aqueles vaporizadores com uma bola de borracha.
Mal me viro para trás, esfrego os meus olhos ainda meio ensonados e para o meu grande espanto não vejo ninguém. Para me certificar que estava realmente acordada, tirei o lenço do pescoço e o vento forte que senti num arrepio gelado, garantiu-me que não estava a sonhar nem no meu sétimo sono.
"Estranho" pensei. Ouvi mesmo alguém.
Entretanto lembrei-me daquelas histórias de espíritos passados que se contam em noites escuras quando estamos acampados, debaixo de céus estrelados e luas cheias. Mas há muito tempo que não ouvia esses disparates, e também há muito que não acreditava neles e por isso, já atrasada para o autocarro, continuei a andar.
Assim que no autocarro, abri a revista que tinha levado para ler, comecei a ver as palavras a movimentarem-se e a criarem novas frases, com sentidos completamente diferentes dos que inicialmente tinham.
Percebi logo que o fugaz encontro que tivera, foi sim com uma velhota, uma senhora que tão depressa se encontra aperaltada como toda suja e o mais rude e àspera possível: a Palavra.
Confrontei-me por momentos com o poder que Ela tem. Poder de união, e dissociação.
Compreendi que pode ser o que quiser, consoante os contextos que se insere, e como tal é um pedaço de barro por moldar, um pedaço de pedra informe por esculpir.
Quando bem encaixada e trabalhada pode ser o que quisermos. Podemos ser o que quisermos se nos fizermos acompanhar desta senhora. É preciso é sabermos relacionar-nos com ela.

domingo, 19 de setembro de 2010

Receita

Ingredientes:
2 doses de determinação
300 g de optimismo
1 kg de iniciativa
1,5 litros de coragem líquida
250 g de generosidade
1 dose de humildade
1 pitada de originalidade
liberdade q.b.

Modo de preparação:
Antes de começar a misturar os ingredientes diga para si própria "sinto-me completa". Perceba que o que importa realmente na receita não são tanto os ingredientes, mas a vontade com que a vai preparar. Como encontra a forma criativa e livre de seguir para a frente com a receita, mesmo que não esteja explícito no procedimento como dar a "volta por cima" se lhe faltar alguma coisa. Isso é consigo. Às vezes se tiver a coragem de a fazer à sua própria maneira, em vez de ir pedir ao vizinho que lhe dê o que lhe falta, poderá descobrir coisas novas e surpreender-se.
Sirva como quiser, em quantidade ilimitada àqueles de quem mais gosta e que o querem acima de tudo ver feliz.
Bom apetite !

viagens férreas II

Negra é a tua aparência. Vislumbras cada segundo desse luto que é o teu tudo. Há um vazio que se avizinha de ti, que vem de dentro do que te é mais íntimo, mas que sai do teu olhar, do teu supiro desanimado que espera muito mais que o autocarro.
Esperas um reencontro com o teu sorriso que te deixou repentinamente sem se despedir.
Desde esse dia, conservas a mesma aparência, agora privada de luz. Um pouco da tua essência permanece contigo, cinzenta de cor e que tu própria silenciaste. Em cada passa que dás no cigarro amargo, expiras um fumo áspero que te seca a garganta, mas te alivia o corpo. Esse fumo que soltas, tem o poder de te enevoar a vista de todas as oportunidades que não agarraste para reencontrar o teu sorriso.
Esse negro que carregas sinaliza que parece ser tarde de mais, mas sinaliza também que sentes saudades.
E para além disso, é sempre tempo de reencontrar. E de sorrir

sábado, 11 de setembro de 2010

viagens férreas I

Sentado junto à porta do combóio, defines o teu lugar como sendo um diferente, talvez porque os teus padrões não se enquadram nos comuns. Qual é o teu destino? Pergunto-me para onde vais, nem sei porquê.
Com o teu pensamento fora de ti próprio, talvez tão longe de ti que preferiste abandoná-lo. E quando nos abandonamos a nós próprios.. quando esse silêncio tão díficil se apodera de ti, torna-se muito mais fácil criar vozes que falem contigo.
Criar gestos que te defendem de ti próprio e que ao mesmo tempo nos fazem olhar para ti.
E foi assim que olhei para ti.

e depois?

E depois?
Se afinal nunca te lembraste de perguntar como me sentia em relação a tudo o que experimentávamos e vivíamos, e que quando tentei explicar, até com receio de que não me aceitasses aquilo que estava a viver dentro de mim e que por receio e falta de vontade não deixava logo transparecer com medo de me sentir sozinha? Provavelmente preciso dessa distância que me permite olhar mais para mim, com outros olhos... os meus e não os teus e dizer-me a mim própria que o mais importante é aceitar-me, como sou. Com as minhas limitações e receios, que na verdade não são inuteis. Ajudam-me a medir cada passo com alguma atenção, para da próxima vez que caminhe sozinha, não me estatele no chão em três tempos.
Talvez toda aquela (falsa) segurança que me davas tenha sido o problema. Demasiada confiança fez-me esquecer que cada um deve cuidar de si e segundo a forma que quer.
Não estou com isto a culpar-te de nada, nem a tirar peso aos caminhos que percorri e que acima de tudo escolhi. Mas se o fiz, foi porque um dia acreditei que não havia mais nada.
E foi porque exteriorizar que "está tudo ok" e sou forte para continuar com um sorriso na cara e umas ganzas em cima, é muito mais fácil do que assumirmos a nossa própria dor, e viver com os nossos erros e problemas.
E o mais importante não é remexer em tudo o que me magoou e ainda hoje dói um pouco, mas sim perceber a minha necessidade de criar à minha volta esta rede tão pouco segura. Talvez porque aquilo que tinha à minha volta no momento não fosse assim tão importante que valesse a pena proteger-me dessa queda imensa que dei e que mereci. Não digo que não.
Mas essa dor é para ser vivida por mim, não preciso que ma inflinjam de que maneira fôr. Até porque quando se aponta um dedo, tem-se 3 apontados e não me parece sequer que haja em ti ou em alguém uma especial moral para o fazer. Porque erros cometemos todos, e há muito que já me apercebera dos meus.
O mais importante é finalmente sentir que essa foi uma forma de estar sozinha, iludindo-me que não estava.
Porque na realidade não podia estar mais a afastar-me de mim do que estive.
E se sentes que precisas/queres que a outra parte de mim volte, não é mais do meu silêncio que te posso dar. E não é por cobardia, ou medo de enfrentar nada. É porque sinto que ele neste momento, diz mais do que qualquer palavra que te dirija.
E é com uma força enorme dentro de mim que te/vos digo, EU (realmente eu) estou aqui.
Pronta a enfrentar desafios, e a construir novos começos, a abrir novas portas. E a verdade é que já me pus a caminho !

domingo, 5 de setembro de 2010

contrariar




Contrariar. Um verbo que tem por norma uma conotação negativa!
E pensar que todo o significado que se prende a ele é algo tão importante e que devemos praticar na vida, da melhor forma que pudermos e soubermos.
É claro que criamos rotinas que são positivas e nos permitem organizarmo-nos e realizar tarefas que nos levam a atingir objectivos que são importantes, mas há rotinas que se prendem a nós com uma força tal e que para conseguirmos aproveitar alguma alegria, e exteriorizar muito do que se passa "cá dentro" é preciso contrariar.
Na física, aprendemos que quando existe uma força a puxar-nos em determinada direcção, é necessária outra num sentido contrário para que o corpo sujeito à mesma, não se deforme, não entre em movimento e inclusivé é preciso que esta seja de uma intensidade maior do que a primeira, porque se isto não acontece o corpo ficará parado (em equilíbrio de forças, como aquelas balanças antigas e que ainda se veem).
Pois bem, se na vida pretendemos imprimir em nós um movimento diferente, uma força que não nos puxe para baixo (e não falo do peso, isto para os mais literais) é preciso contrariar. E ser do contra! Não com o Mundo que me rodeia, comigo própria.
E a física prova que não é fácil! É preciso uma força de intensidade maior para contrariar a que nos "puxa" para baixo... Mas quando a encontramos e começamos a sentir-nos em movimento contrário é tão bom que dá quase vontade de nos deixarmos levar. Mas é preciso continuar, ou então a gravidade (ou as distracções da vida, dependendo da interpretação) voltam a tomar conta de nós. Já pensaram que por vezes contrariar pode significar sermos exigentes connosco próprios?

domingo, 8 de agosto de 2010

asas de fada



Traz-me o chá. Trá-lo bem quente. Preciso de aquecer a alma, de aromatizar essa estrada molhada da chuva, asfaltada de medo; essa tal que há tanto tempo chamam de vida.
Sento-me no piso de névoa, gelada como eu, as minhas mãos encaixam no chão frio numa ligação quase perfeita de caminhos percorridos e destinos pesados e gélidos como a pedra polida do chão.
O medo sussurra-me ao ouvido em linguagem estratégica, cada palavra planeada pormenorizadamente ao nível do mais sórdido e assustador terror psicológico.
Raízes… raízes … raízes …
Raízes que me aprisionam às origens, que não me deixam ser uma árvore crescida e que me vendam os olhos e prendem os membros e não me deixam ver o Mundo nem me deixam ver a mim.
Silêncios mecanizados e zumbidos em altifalantes que me calam, corroem a garganta e não me deixam cantar a música que eu quero, não me deixam sequer falar nem gritar de revolta, nem chorar de desespero.
Apenas queria ver o Mundo com os meus olhos. Já ficava feliz se me deixassem só espreitar para saber como é.
E assim choro cá dentro da minha alma pequenina, mas já tão pesada.
Às vezes sorrio e penso nas minhas fadas que inventam a música, a alegria e o Mundo para mim. As minhas fadas que cantam e pintam a vida com arco-íris e pozinhos que cheiram a pétalas e a folhas molhadas da chuva e dos cristais mágicos da manhã.
Mas o asfalto da estrada e os carros. E as figuras que assombram.
Choro e derreto o que sou cá dentro.
E se ao menos as fadas inventassem a liberdade para mim e ma dessem numa folha envolvida em vento … !

(ainda era no tempo da framboesa silvestre. alguém se lembra?)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sur le fil

http://www.youtube.com/watch?v=jJqYjL4kia8

O cubo translúcido rebola pela montanha abaixo. No caminho, a alta velocdade, pisa pequenas flores que ali, onde o vento chega seco e impiedoso, custam tanto a crescer... Ao mesmo tempo, é picado pelos espinhos de silvas que se amontoam naquele recanto de nada, onde não chega calor nem luz. Estes cravam-se nos seus pedaços de vazio que tem dentro de si. São dolorosos e afiados, mas ao mesmo tempo uma suave sensação de conforto apodera-se dele, porque apesar de sentir uma pontada aguda, sente também que há algo que se prende a ele durante a vertiginosa queda que experimenta.
A vertigem do vazio é a maior que alguma vez vivera.
Apercebe-se, que mesmo que queira escapar, o tempo lhe escorre pelo peito e é agora demasiado tarde.
Pensa na morte, com uma força tal que já se sente assim. Sabe que ao pisar o que tanto lhe custara a viver e crescer, já morre um pouco, a cada dia.
Agradavelmente, pensa na hipótese de um céu azul, com um clarão de amor aqui e ali mas abaixo dos seus pés apenas vê trevas e escuridão.
Está tão sozinho que até o chão se recusa a tocar-lhe os pés. Camnha numa espécie de sobrevivência flutuante que se ergue sobre ele e é agora penerante e aterradora.
Tenta gritar, mas até a garganta secou de tanto silêncio que guarda dentro de si. A frustração é agora um resto de emoção interior que suga como um remoinho os poucos e escassos pedaços de si que ainda guardava, como recordações antigas e ultrapassadas que guardamos dentro de caixas, escondidas, para um dia, com mais coragem, as deixarmos saír e voar livres. Livres de nós e do peso que carregam.
Ao lembrar esses escassos rasgos de si, parece sorrir; mas a sua cara perificou de tanto sorriso que prendeu na cara sem sentido. No seu olhar resta essa vontade imensa de sorrir para se despedir de uma parte de si, como se esta tivesse em fase terminal, prestes a morrer.
Nem de uma despedida era digno.
Imaginou o seu funeral, cheio de coroas de flores que cresciam e se alimentavam das lágrimas de todos os que o perdiam...
A dura realidade com que se confrontava era ter-se perdido a si mesmo primeiro, sem deixar sequer que a sua falta pudesse ser sentida pelos outros.
E efectivamente não era.
Estava preso com amarras de dor e indiferença. Dentro do peito batia-lhe a vontade de chorar, quando há muito já secara por dentro. Estava amarrado a si mesmo e cada vez mais perto do chão, do fim.
Sem uma lágrima, uma despedida, um grito, um sorriso, um gesto.
Apenas aquele olhar longuíquo, perdido, pesado. De um castanho mais profundo que ele mesmo.
Estava agora dormente e num formigueiro constante. Era o chão, o fim...
E a leveza de um peso que se liberta. Para sempre.

domingo, 1 de agosto de 2010

miscelânea de palavras

Lisboa pintada de céu e rio, cuja tradição esvoaça entre prédios e casas, e cujas pontes nos transportam para outros lugares onde o Sol não brilha da mesma maneira.
Maneira de cavar a terra é importante para uma boa agricultura.
Agricultura de relações... Temperar a atmosfera. Dar-lhe calor, frio, alimento, clima oxigenado para que lhe seja possível respirar, ganhar raízes sólidas e acima de tudo crescer. O céu não é o limite.
Não há limite, na terra nem no céu. O infinito é o limite e isso é que dá força para continuar a lutar.
Lutar para chegar ao destino. E quando alguém tenta fazer-te desistir, resta apenas um fio de luz que permite fazer como um herói e encontrar alguém capaz de te fazer desistir de desistir. Esse alguém põe-te feliz nos momentos de angústia e ensina-te a fazer da tua desgraça uma piada.
Piada como as comédias que giram à volta da má condução feminina.
Ser feminina vem da paixão que temos por nós próprias. Sentirmo-nos bem connosco é importante, porque se gostarmos de nós, quem não gostará?
Gostará de se apaixonar por um homem que não faz muito o seu género? É um bocado labrego...
Nas suas partes íntimas os pêlos crescem como cebolas deitadas à terra. Não sabe apreciar lingerie discreta, tem como melhor amiga a bebida e o pior: quando chega a hora da verdade, não tem lá grandes atributos.
Atributos do whisky é que fazem deste líquido uma das bebidas mais caras do Mundo.
Mundo de mentiras e cobardias que se espalham pelo ar. A vida perde o sentido.
Depois há pequenos sinais que murmuram constantemente a verdade ao ouvido e que dizem baixinho: " SONHA".

(jogo das frases embrulhadas- Maggie e Lia)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

be stupid


BE STUPID! Sai de dentro das linhas e faz tudo para que te chamem estúpido. Se isso acontecer é o elogio pelo teu espetáculo. Saíste das regras, conseguiste, e o julgamento do olho normal, dentro da linha, considera-te estúpido, desalinhado. Quer isso dizer que te libertaste. Sem medo do rídiculo.

Libertaste os pensamentos, extravasaste na criação e sobretudo não te levaste a sério. Nunca te leves a sério. Isso é coisa de gente esperta, e de espertos já está o Mundo cheio. Be Stupid e dá algo novo. Afinal, ser estúpido pode ser só ser consciente de que nunca se tem nada a perder. Ser estúpido é correr riscos, e para correr riscos, embora sendo-se estúpido, é preciso ser-se bravo. Isto no caso de se ser estúpido por consciência e confiança, e não por pura falta de noção das circunstâncias.

Be stupid. Sê estúpido como um brilhante palhaço. Sê estúpido como só tu mesmo, ou entra numa de revivalismo à atitude trash com inspiração jackass e quando vires um par de calças que valém no mercado 3 centos de euro, na rua, dentro de um paralelo de gelo, a título de exercício, arma-te de picaretas, maçaricos, martelos e uma grande vontade de pura diversão. Sem troféus. Apenas desafio ao engenho e boa disposição. É um jogo, e embora o prémio não seja a paz de espírito, levam-se umas calças de ganga e mais tudo o que se pode ganhar com a experiência de um dia ter perdido a vergonha, o limite e o risco não tendo importância o motivo, mas sim a consequência. BE STUPID.


Célia F.

terça-feira, 29 de junho de 2010

ses e certezas


Noite que avança lá fora, cheia de Lua… por aqui, um quarto quente, erguido pelas paredes das memórias. Olhos abertos, despertos pela música que vai surgindo por entre os lençóis revoltos de tanto me virar para um lado. Para o outro. À procura incansável daquele no qual fico mais confortável.
Nesta pesquisa incluo as memórias entranhadas na parede do meu quarto, nas quais constam imagens e pequenos momentos guardados aos quais volto, por vezes involuntariamente. Imagino como seria se tivesse sido diferente. De algum modo diferente… Estaria agora a dormir tranquila, enquanto a noite se agita lá fora?
Palavras suspensas, agarradas por um “se”, condição que as mantém pendentes e as impede de cair e se desvanecer… Já se teriam desvanecido, as palavras se tudo fosse diferente.
Mas depois, interrompo este pensamento, como se acordasse para a realidade de que quando caminhamos em certa direcção, os acontecimentos dirigem-se em gradação, em escala para nós e por vezes só quando o termómetro está prestes a rebentar com as temperaturas altas que experimenta, é que nos apercebemos que é hora de voltar para trás.
E depois, tanta é essa vontade, que tentamos a toda a custa, procurar nas nossas memórias recentes, momentos, perdidos, fragmentados em que nós próprios fugimos a estas direcções que hoje nos espezinham e humilham. E estes momentos, são meras suposições, condições.. palavras sempre suportadas por “ses”. Eles são perigosos, porque são incertos.
Mas já estão muitas silvas desbastadas, há muitos espinhos que não magoam mais. E a cada dor que se põe fim, nasce uma pequena semente de certeza : a certeza de não querer mais aquela dor tão forte para nós.
Esta semente, se bem cuidada, se criadas por nós as condições certas, cresce, e começa a despertar em nós o caule forte da certeza, que vai dar frutos..


domingo, 27 de junho de 2010

História de uma Papoila III




E assim foi, com a sua vontade de chegar ao topo, Papoila subiu com uma genica e ousadia incríveis, aquela que sentimos quando queremos alcançar um objectivo com tanta força, que nos esquecemos do medo, do perigo e do cansaço.

À medida que agarrada às pedras escarpadas, trepava a montanha com suor no rosto e os joelhos massacrados, sentiu todo o seu corpo a ser engolido por esta montanha tão alta e especial.

Assim que ultrapassou a camada de pedra, um Mundo de cor e movimento se criava em frente aos seus olhos. "Devo estar a delirar do calor. O melhor é fechar os olhos" pensou. Aquela interpretação do que lhe acontecera era inútil,pois ao tentar fechar os olhos via exactamente o mesmo, como se estes continuassem como estavam.

Um pouco assustada, mas ao mesmo tempo deliciada apercebeu-se que se encontrava numa espécie de feira popular bastante original e no meio de uma floresta onde as árvores estavam carregadas de frutos azuis e cor-de-rosa choque e cujas folhas vermelhas balouçavam no cimo de troncos amarelos. O céu tinha um tom lilás, e o Sol, ainda mais abrasador era de um verde escuro profundo. Este era suavizado por uma brisa constante e amena, que quando passava, rasgava a atmosfera de um prateado brilhante como se fossem pequenas estrelas cadentes, mas a caír na horizontal.

A fome de todo o esforço que já fizera até ali, apertava-lhe o estômago e por isso provou um daqueles frutos estranhos da árvore amarela. O sabor era fantástico: um misto de coca-cola com baba de camelo e sorvete de limão. Apesar disso, depois de provar aquele fruto, encontrava-se numa daquelas rodas gigantes que existem nas feiras populares, mas esta estava segura por raízes. Durante a viagem sentiu uma vertigem enorme e um arrepio estridente que lhe percorreu todo o corpo, como se estivesse a saltar por entre vales de grande profundidade num voo plano. Subitamente, todas as raízes que seguravam aquela diversão, desfazem-se em mil pedaços e papoila encontra-se em queda livre. Fecha os olhos com toda a força que pode e não consegue conter um grito de desespero: "AHHHHHHHHHHHH!"

O seu corpo frágil de flor de primavera encontra-se durido e dormente. Assim que se levanta do chão, olha à sua volta e encontra-se deitada no chão do seu quarto ao lado da sua cama.

Afinal a queda não tinha sido assim tão fatal. Mas aquela aventura tinha sido muito mais do que um simples sonho, conseguia senti-la vívida e natural em si.

E a partir desse dia, tornou-se uma flor ousada e atrevida, capaz de correr rumo ao desconhecido, com uma persistência e vivacidade únicas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

História de uma Papoila II





"Contraditório, pensei. Protejo-me dentro de mim mesma como uma Polegarzinha e pareço-me cada vez mais longe de mim. Pequenina como uma Polegarzinha".

Dias passaram e tentou calar aquela voz que surgia permanentemente dentro de si. Tornava-se ensurdecedor.

Era preciso saír daquela cúpula onde se protegera, para olhar o Mundo e apalpá-lo, cheirá-lo, encher-se dele.

Conhecer as montanhas e os vales, em vez do seu seguro mas já conhecido caminho plano.

Um dia, Papoila acordou e decidiu-se. Pegou numa pequena mochila com tudo aquilo que lhe pareceu precisar: algum dinheiro que tinha juntado, mudas de roupa e o canivete suiço que o avô lhe tinha dado. A manhã estava calma, o céu de um azul brilhante, limpo de núvens marotas, cheia de Sol e com um vento suave com cheiro a verão e calor.

Partiu rumo a uma grande montanha que existia a alguns kilómetros da zona onde vivia. Passou campos nos quais as searas se agitavam, produzindo um sussurro agradável. Passou em poças lamacentas, por entre as quais pequenos riachos se apressavam também no seu trilho. Pensou em como gostaria de correr assim, tal como um rio.. mas depois lembrou-se que também estes se deparam com pedras afiadas, e barragens dominadoras e apagou-se esta imagem da sua cabeça.

Finalmente era capaz de ver a montanha, mas começava a ficar tarde. Instalou-se junto a uma árvore que se encostava a uma rocha alta que a abrigava do vento e lhe permitia fazer fogo sem que este se apagasse com a humidade que caía à noite. Aconchegou-se na roupa que trouxera, e comeu algum pão que trouxera. Assim que se deitou no chão de ervas macias, olhou o céu de um preto imenso e profundo, cheio de pontos brilhantes e fortes e adormeceu a dar nomes a todas aquelas estrelas, que provavelmente já o teriam, mas não se importavam de certeza de ter um novo.

A luz do Sol entrava por entre os galhos com uma força incrível e marcante. Toda a sua vivacidade acordara a pequena rapariga adormecida que pela energia que aquele sol tão brilhante lhe trouxe, levantou-se e caminhou rumo à grande montanha, e pensou para consigo " hei-de subi-la com uma tal vontade de lhe chegar ao topo que me ponho nas alturas num instante!". E assim foi, mas Papoila não imaginava que a subida que a esperava era a mais inesperada e inesquecível que alguma vez teria..

quarta-feira, 23 de junho de 2010

História de uma Papoila I



Até àquele dia, Papoila nunca fora "fiel" ao seu nome, como uma flor de pétalas frágeis e fugidias, a baloiçar ao ritmo do vento e a espalhar as suas sementes pelos campos perdidos e vales escorregadios.
As suas lentes eram dois olhos negros, firmes e atentos com os quais via o Mundo à sua peculiar interpretação.
Olhava-se ao espelho e era incapaz de reconhecer em si mesma um rasgo de paixão cujas papoilas habitualmente emanham com o seu encarnado garrido e exuberante. Em contrário, esta rapariga tinha uma discrição e organização quase irrepreensíveis.
Estas características da Papoila eram consequência da vida que sempre tivera, protegida de ventos inesperados, fortes e perigosos.
Tudo o que tinha era uma vida plana e reta. Para ela, a caminhada seria sempre desta forma: uma estrada sem relevos (altos e baixos), sempre comprida e como tal bastava dar alguns passos em frente e percorrê-la.
Vivia sem grandes paixões.
Sentiu claro, as naturais e típicas atracções adolescentes, mas foram sempre encaradas com uma grande tranquilidade, um olhar realista e não romanceado, quase estranho para a sua idade, mas que lhe permitia ter uma grande distância de tudo o que podia fazê-la sofrer, pela falta de apego a estes fraquinhos passageiros e aborrecidos.
Agradavam-lhes os traços que a faziam sentir-se uma papoila a crescer na estufa com o Sol, a terra, a água ideais; sem excessos trazidos pela chuva ou por um clima menos agradável.
Papoila criara uma capa que a protegia, mas que também a afastava das pessoas e da loucura de sonhar.
À medida que se deixava acariciar mais por ela própria, aninhar-se na sua confortável maneira de ser tão certa e segura, fugia do Mundo para o seu, o que a distanciava agora dos outros, mas também de si.

(to be continued)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Asas

"Vê mais longe , a gaivota que voa mais alto"
palavras "oferecidas" por alguém que quer verdadeiramente ver-me a voar. A voar não pelas direcções que o vento sopra, mas com a sua firmeza e serenidade. Com a sua discrição que se ouve, mas não se vê.
Antes de iniciar o caminho é preciso escolher um bom calçado, compreender até que ponto estamos confortáveis com o que temos, mas acima de tudo ter a certeza que vamos poder ter quem nos ampare se caírmos, ou mesmo impedir-nos de caír quando subirmos uma rocha escarpada, com o vento contra nós.
"(...) ultrapassado o Tempo e o Espaço o que nos resta é o Aqui e o Agora". E o que é o aqui e o agora?
Para mim o Aqui e o Agora era o aproveitar o momento, sem complexidades, deixar-me levar, largar a rocha escarpada que subia contra o vento e deixar-me libertar ao sabor dele, deixá-lo direccionar-me para um destino desconhecido e perder o rumo, o ponto de chegada. E o de partida.
Aqui e Agora é muito mais precioso, é o tesouro que guardamos dentro de nós. O destino que traçamos e que fica mais claro para nós a cada segundo da caminhada, ainda que muitas vezes olhemos para tras, para a distância a que estamos do chão, (sem perceber que ela reflecte a altura a que já estamos) nesta dura escalada do dia-a-dia e nos apeteça largar a rocha e descansar os músculos, a cabeça, a vida.
O Aqui e Agora, são as nossas duas verdadeiras asas - as feitas de penas não nos fazem voar mais alto, ver mais longe- são elas o calçado confortável que nos faz sentir bem na caminhada mas também a bussola que nos impede de nos desorientarmos.
Há sempre pontos de encruzilhadas, em que estas duas asas, (por vezes ainda frágeis como asas de borboletas que mal são tocadas se paralizam) têm de voar segundo a intuição. Mas esta também se aperfeiçoa com o tempo.
Este é o voo que quero. Para ver céus azuis arroxeados pintados de fim de tarde e de Verão, partilhá-los com gaivotas cujos voos se fazem do planar atento junto do meu.
E durante o caminho ser capaz de olhar para as raízes que germinam em mim, não para me aprisionar mas para me mostrar as flores e frutos que me podem dar; ser capaz de sentir o cheiro da terra na qual os meus pés se enterram, sempre a sentir que por vezes há um vento quente e calmo capaz de me dar engrenagem para o caminho. E que tenho a grande árvore de copa larga e tronco antigo cujos ramos me aconchegam com as folhas fofas e frescas, e que apesar de muitos "ventos" lhe agitarem as folhas, está firme e ali e mesmo que os meus braços não a cubram toda, posso abraçá-la quando quiser.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

devolva-me



A vaguear por entre recordações, lembrei-me de como a música foi uma "terapia" importante junto de mim, sendo esta capaz de me dar uma força incrivel, inexplicável perto de sobrenatural.

Muito tenho a agradecer à Adriana Calcanhoto e a esta música, que ouvi muito enquanto tinha o meu "coração partido". Foi muito bom, olhar para trás e ao ouvi-la consigo recordar tudo aquilo que efectivamente sentia enquanto a ouvia ha uns dois anos. Lembrei-me das brincadeiras de menina pequena, dos momentos passados nesses tempos e sem querer parecer demasiado saudosista ou melancólica, custa-me a crer que o tempo se passou a este ritmo tão frenético, quase imparável. E deixa-me esta questão, deviamos ter direito a saborear a vida, por mais tempo. Assim deste modo, as nossas papilas gustativas não fazem o seu total efeito. É estranho. Tenho saudades e vontade de pôr o tempo a andar mais devagar. Pois é, para o ano já vou para a faculdade, fazer novas descobertas e cruzar-me com pessoas diferentes.

Vai ser óptimo, claro. Mas apenas podia não ter sido tão rápido. E agora é a minha vez de pedir ao tempo: DEVOLVA-ME.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

até ja

Sabem aqueles momentos em que não vos ocorre mesmo nada?

Dá-vos uma espécie de “stand-by” e não sabem o que fazer do momento, falta-vos a língua, a palavra escorre-vos pela alma abaixo e não se faz ouvir?

E no fundo, intimamente, vocês sabem que isso acontece porque não têm o que fazer ou dizer, mas é preciso partilhar, pôr algo a mexer?

PONHAM RETICÊNCIAS …

Seja qual for a teia de palavras em que se enredam, há sempre espaço para reticências..

Reticências em tensão, em alegria, em foco, em silêncio, em grito uníssono, em dança, em trabalho, em gargalhada..
Nunca desagregados ou perdidos, RETICÊNCIAS atrás da palavra.

Porque é que me sinto quase entrelaçada por fios invisíveis, ligações quase perfeitas e únicas?
Porque é que a Ângela tem agulhas de tricot, se nunca tricota na peça? Porque é que a Laura usa uma vassoura como detector de metais? Porque é o Rui Mário tem um cabelo tão fofinho, que champô usará? Porque é que a Inês Frias ficou pintada nos lábios depois da cena Noku? Porque é que o Fábio diz "natas" com tanta convicção? Porque é que o Rúben tem um cachecol cor de rosinha? Porque é que o Nuno usa um megafone e eu não? Porque é que a Bia não consegue descansar? Porque é que o David tem uma banana que é um comando e depois a come? Porque é que o Miguel fuma ganza por um aerossol? Porque é que o Mário tem a mania que toca o instrumento estranho? Porque é que a Cláudia é que diz verdade ou consequência? Porque é que a Bárbara a meio da peça saca do menino da lágrima? Porque é que Paulo diz blufalliciouuuuuuuse? Porque é que a Catarina tem a mania que inventou os kompensans? Porque é que o Luís é uma figura puxada por heroína? Porque é que a Thais diz casa com jardim dim dim e OJOS? Porque é que a Inês Bento grita quando diz HELICOPETRO TELECOMANDADO? Porque é que a Elsa fala sempre em cuecas às bolinhas? Porque é que a Tânia sendo cabeleireira tem um andar tão fino?

Vocês fizeram-me perceber, que há coisas que não merecem resposta. Simplesmente são.
Se as respondessemos, perderiam toda a magia. Enfiámos 12 candeeiros em palco, somos mesmo muita bons. TRAZEMOS O REI NA BARRIGA, ANDRÉS!
Tal como nós somos, quer estejamos presos ou ligados fisicamente.
E VOU SER UMA LAPA, sempre a colar-me aos vossos aquecimentos. Vai ser lindo.
Até já, sempre..

segunda-feira, 17 de maio de 2010

perspectivas


Tão empenhados em sentir as coisas de forma diferente, mais bonita, mais autêntica e verdadeira, que acabamos por esquecer que basta saír do lugar onde estamos e partir para outra, por vezes mais alto, maior..

Um lugar de onde colocamos uma espécie de óculos que nos permitem observar a vida de uma forma renovada, pintada das cores com que sempre sonhámos. Basta encontrar um muro aos triângulos, de onde a Serra, as árvores, os castelos e os pássaros parecem maiores e cuja matéria onde o musgo é tapado com cal.. e não nos sentimos como somos, mas pequeninos quando comparados à Sintra mágica que observamos.

A Vida não é só feita da realidade que a compõe, mas também da perspectiva, do plano de onde, espectadores silenciosos e atentos a observamos, a cheiramos e a tocamos.

Como uma paisagem vista de fora, e dentro de um triângulo regular, com o qual podemos esconder momentaneamente o que mais tarde nos parecerá insignificante..


{12-05-10}

domingo, 16 de maio de 2010

tecla branca, tecla preta


Uma tecla, um som.. Talvez uma nota desafinada.

Sem melodia ou sentido.

Não fossem as teclas que variam os tons, as sustenidas, que sustêm sentidos. Sentidos, direcções.. ou interpretações de conceitos definidos por nós e pela nossa percepção. Nada nos garante que a definição esteja certa. Afinal não passa disso, uma definição.

Uma tecla tão insignificante, mas sem a qual o todo ficaria quase sem significado; diminuido, sozinho.

É por isso que ignoramos o que nos parece pouco ou pequeno. Mas quando percebemos que essa fracção nos falta, que precisamos daquela tecla para tocar a música, apercebemo-nos do quanto tudo é relativo e aprendemos a dar valor a tudo o que é pormenor e nos rodeia.


12/05 .. esse mês de Maio!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

papa-móvel

foto tirada na exposição- Leal Da Câmara (jornal o Diabo)

Esta visita de Sua Santidade, o papa Bento XIV, a quem algumas más-linguas denominam o pastor-alemão que atrai milhões de "ovelhas" em carreirada, tem muito que se lhe diga..
Já no tempo do cartoonista, (um dos primeiros do nosso país e que deu rumo a esta forma de arte crítica) considerava uma grande contradição na forma como estas figuras, apoiantes dos preceitos da Igreja, que inclusivé encoraja e exalta a humildade (Jesus Cristo, nasceu, viveu e morreu na maior das pobrezas e humildades), pode ostentar tanto luxo e regalias, e ao mesmo tempo fechar no núcleo muito restrito tanta informação que para ser escondida, alguma razão terá.
Bem sei que todos estes assuntos, que estão na ordem do dia, têm sido muito falados e acredito até que a opinião esteja muito centralizada e direccionada para um certo caminho,até porque a comunicação social se encarrega disso; mas não posso deixar de referir os casos de pedofilia na Igreja que me repugnam e revoltam.
Como é possível que um homem, padre,Papa e líder de uma Igreja pôde omitir e encobrir todas estas verdades que são tão chocantes e assustadoras? Vivemos, sem dúvida neste momento uma crise de valores, mas desde pequena aprendi que "tão ladrão é o que vai à horta, como o que fica à porta", ou seja, quando alguém encobre uma acção tão grave e errada, aos olhos da lei e da moral é cúmplice.
Conheço bem os princípios da Igreja e da Bíblia, e considero que a maior parte deles possam ser um ensinamento e transmitam valores, não pelo valor religioso que possuem, mas porque são regras para uma conduta e para uma vida feliz e espiritualmente preenchida.
Conheço também a evolução da sociedade e do conhecimento que a acompanha lado a lado e é compreensível, mesmo para quem não tenha vivido no tempo antes do Estado Novo, que as mentalidades hoje estão finalmente a mudar. E uma Igreja, apesar de não poder agradar a todo um povo e de não poder fugir à Sagrada Escritura, deve acompanhar esta evolução.
A Inquisição foi das organizações (se é que se pode chamar assim) que matou e torturou mais homens, quando e bem sabemos, um dos valores que se proclama nos mandamentos é a Tolerância. E hoje em dia, esta barbaridade já não é aceite nem defendida porque sabemos que vai contra as leis não só de Deus, mas os próprios Direitos Humanos. Houve uma Evolução.
Uma adaptação da Igreja à evolução de toda uma História mas também da sociedade.
E eu hoje pergunto-me, porque é que, aos olhos da Igreja alguém casado pela Igreja não se pode separar? Pergunto-me porque é que um padre não pode casar-se, quando sabemos é possível nutrir amor para com uma fé e para com alguém e as próprias leituras exaltam o Amor? Pergunto-me o porquê de a Igreja não aceitar a homossexualidade como uma realidade que pode ser compatível com a Religião. Pessoalmente, não me identifico com uma orientação homo, mas nunca iria deixar de falar com alguém ou negar-lhe ajuda apenas por ter uma orientação sexual diferente da minha. Antes de sermos caracterizados por religião, orientação, escolhas, somos Pessoas. Seres humanos que merecem viver em união.
Depois das notícias acerca de todos os movimentos do Papa, pergunto-me qual a mensagem que isto nos trás? Estaremos a viver uma altura, como país e sociedade que justifique todo este protagonismo e importância à volta da questão?
E o Estado? Qual é o papel dele no meio disto tudo? Estará correcto, "parar o país" apenas porque um líder da religião católica (que é a maioritária no país)? Estamos em crise.
É um facto que as contas prova, o país está neste momento individado. E o Estado deve ser um orgão imparcial, laico.
Para fundamentar a minha opinião e me enriquecer, foi uma definição que levantei.

A palavra laico significa uma atitude crítica e separadora da interferência da religião organizada na vida pública das sociedades contemporâneas.

Que siga os ditames da sua consciência (quer no caso em que se acredite que seja divinamente inspirada, quer pela razão, intuição, estética ou qualquer processo pessoal), ao invés de seguir, ou obedecer cegamente às regras, hierarquias e autoridades morais ou eclesiásticas de uma religião organizada.


Penso que não restam dúvidas da acção que o Estado deveria ter perante esta situação.

O Papa está neste momento em Fátima, local onde amanhã irá dar uma missa há qual assistirão milhares de portugueses afastados dos seus locais de habitação e trabalho propositadamente para assitir à mesma.

Custa-me também olhar para um país, cujo governo é socialista, que está neste momento a (des)evoluir em mentalidade e campo de acção.

Logo a seguir à Implantação da República, em 1910, o partido da altura, seguiu à risca este princípio do Estado, retirando das escolas os símbolos religiosos ainda apresentados na altura nas salas de aula (cruzes e imagens católicas), "restos" da educação e tradição ainda deixada pelas imposições do Estado Novo; o que a meu ver é muito importante para que haja alguma imparcialidade nas decisões e condução de um país no qual estamos no direito livre de exercer a escolha de uma religião, espiritualidade que deve ser respeitada e aceite. Se assim não fosse escolhiamos ser governados por um líder religioso!

Ainda é de referir que o papa, enquanto cá esteve a proclamar o seu discurso, muito vangloriou o Cardeal Cerejeira, patriarca que dirigiu a Igreja Católica durante.. adivinhem.. O ESTADO NOVO! Pois é. Era íntimo de Salazar, e apoiante do Estado Novo, inclusivé acordou com Salazar muitas das medidas que este último tomou em relação à Igreja.

E depois de tudo isto, pergunto-me.. estamos a caminhar para um progesso e uma abertura de mentalidades, onde podemos ter uma opinião e defender os interesses de um País, uma sociedade, com uma política capaz de pensar primeiro no sucesso; ou continuamos a rumar para um país de aparências; com uma dívida a crescer, um progresso a diminuir e uma mentalidade a fechar-se de novo ?

Acho que vale a pena pensar nisto.. Quem tinha razão era o Leal da Câmara. Já agora, vejam a exposição no museu de arte moderna de Sintra (entrada livre), e fiquem a conhecer um bocadinho mais sobre esta fantástica personalidade da nossa zona, e que pensou muito à frente para a época dele, e contribuiu muito para uma liberdade de opiniões e pensamento !

Aproveitem para ver o World Press Cartoon, e façam o paralelismo com Leal da Câmara, é muito interessante. E digam de vossa justiça!



Matrioskas


Não é isso que somos todos?

Bonitas bonecas expostas ao Mundo, revestidas de pormenores detalhados e coloridos. No interior da grande carapaça que nos faz parecer enormes e de expressões largas e certas, encontram-se réplicas iguais a nós em essência, mas de tamanhos vários e de pormenores e cores diferentes, que experimentamos em várias situações da vida.

Dentro de nós estão várias personalidades (nossas) mas com algo a menos... Ou algo a mais, nunca é possível descobrir!

Há momentos em que olhamos o Mundo através de uma vitrine, encostadas a milhares de livros, a sentir o cheiro das palavras a fervilhar de ansiedade para ser bebidas, cheiradas, engolidas, quem sabe um dia ditas e libertadas.

Outras aderem como ventosas a paredes repletas de recordações, vivências e acontecimentos, enquadrados num espectro variado de contextos, pessoas e ambientes.

Há matrioskas que esvoaçam junto ao corpo de pessoas e chegam a perder a identidade, porque passam a pertencer àquela imagem, àquele algodão, àquela alma. São matrioskas.

Cheias de capas detalhadas que protegem o seu pequenino e fundo tesouro interior.


11/05/10

domingo, 2 de maio de 2010

Entre querer e crer

"De sábio e de louco todos temos um pouco"
Hoje confrontei-me com uma lucidez por vezes um pouco "adormecida", uma lucidez por vezes perdida e não totalmente real, ou pelos menos não tão real como gostaria.
Nos momentos em que me sinto mais desanimada com o que vivo e sou, agarro-me sempre com raízes fortes e duras a um incerto de grandes dimensões ao qual me agarro momentaneamente, com a verdade escondida dentro de mim que nunca o irei alcançar.
Muitas vezes as barreiras somos nós que as criamos, mas as verdade em que acreditamos também. E porque não acreditar apenas em mim? Porque preciso de inventar algo muitas vezes disforme e enevoado de tão pouco palpável que é ao qual me agarro e comunico a todos que me agarro, mas que sei que não existe dentro de mim? Ou estou mais uma vez a tentar mostrar a mim mesma que não há limites e que posso sonhar o que quiser ?
Sempre ouvi dizer que voos demasiado altos, implicam quedas dolorosas. Mas ainda que um pouco lesionada depois de uma queda, a solução não pode ser ficar quieta a ver os outros voar.
Qual será a solução?
Às vezes parece que a Verdade não é a minha verdade. Mas tenho de parar de acreditar no que QUERO e começar a acreditar no que me aparece. Por mais dificil que seja...A verdade interior é mais complexa, e só se cria a partir do que absorvemos (ou não!) de fora.

" A verdade é um Sol pousado em lágrimas liquidas interiores, que ainda não se desprenderam do ciclo fechado para se tornar palavras ?! "

sexta-feira, 26 de março de 2010

Primavera Poética


E não é a Primavera um tempo de renovação, simples e natural que vem com um vento ameno que nos enche a alma de cheiro a flores, a terra e a noites maiores de Lua brilhante estampada no céu ainda aceso?
Essa renovação não é imediata. Tal como as flores despontam devagarinho, ao seu ritmo a poesia entranha-se em nós num compasso sereno, num levitar quase suspenso.
Principia-se o ritual, despindo os trapos velhos de um Inverno frio, de erros crus e negros, de noites longas de chuva cortante, de ventos a favor e contra e que nos desviam da orientação principal.. Esse despir não tem de ser martírio e apatia, mas sim confiança e desvario (moderado). Ao retirar a aspereza da sarapilheira que nos pesa nos ombros, sobressai um branco límpido pronto a preencher. Branco de simplicidade, pureza, entrega...
Branco que desperta para uma abertura que nos leva a pintar em nós, na vida, nos outros as diversas cores da Primavera. E estas cores são movimento, dança, partilha conjunta de arte escrita.
Arte escrita para ser dita. Por nós e por todos.
Palavras que nos fazem chegar uns aos outros, numa segurança firme e sincera.
É este olhar do Mundo e de todos que nos une. O saber que se vacilarmos, temos alguém pronto a impedir-nos de caír.. que podemos ser silêncio, mas que logo a seguir vai haver alguém a chegar-se à frente e a preencher-nos com palavras. Ou com reticências...
Estamos juntos ! OBRIGADA.

quinta-feira, 18 de março de 2010

maça com bicho

Verdade sentara-se na mesa de pedra branca sob a luz amarelada do candeeiro de luz frenética e instável. Sob a mesa encontrava-se uma taça de fruta e uma tigela de sopa.
Sempre que se sentava sob aquela luz que lhe apontava o olhar, acabava por engolir mais uma colher. E engolia, uma e outra vez.
Não porque tinha fome, mas porque desde pequena lhe diziam que não se devia estragar comida.
Havia sempre uma voz dentro da Verdade a dizer-lhe que não se devia estragar.
A sua vida conduzia-se como um jogo de xadrez, o dedo dos que a comandavam impunha força sobre a sua pequena peça que deslizando sobre o tabuleiro avançava ou recuava numa total entrega ao momento e à direcção sem saber quando existiria um Xeque-Mate para o adversário.
Para a Verdade nem havia um adversário.
Todos eram seus companheiros neste estranho modo de vida. Bastava deslizar pelos quadrados brancos e pretos.
O chão onde a Verdade caía era assim, geométrico e linear: de dimensões iguais independentemente da peça de quem se aproximava, e de duas cores apenas, branco ou preto, tudo ou nada, verdade ou mentira, ódio ou amor, abraço ou pontapé, beijo ou chapada, euforia ou apatia. Já caíra algumas vezes, mas havia sempre alguém para a levantar... Nunca seria capaz de o fazer sozinha e dentro de si sabia-o.
Um dia, o rei oponente estava quase a fazer Xeque-Mate, e Verdade sem saber sequer de que lado jogava continuava no seu Mundo ilusório desprendido de algum sentido ou noção real, até que o peão se move para a frente dela e lhe mostra como saír daquele tabuleiro de comandos, complicações.
Mas para exteriorizar todas estas dificeis questões foi necessário confrontar Verdade com a verdade.
Qual destas seria a real? A sua própria essência, que apesar de ser aquilo a que agarrava porque era quem conduzia não estava certa se Verdade era mesmo ela própria, pois se nem do jogo da vida sabia as regras, para quê colocar-se noutros jogos que ainda por cima jogava em mãos de outros?
A verdade não estava dentro de Verdade. E ela no seu íntimo mais profundo sabia-o, mas o que mais lhe custava era poder ter de exteriorizá-lo, não só pela imagem que lhe traria, mas também porque exteriorizá-lo seria admiti-lo para si própria e senti-lo.
Sentir-se-ia traída, enganada por si a si.
Sufocada com a sua própria maneira de ser, incomodada com a sua própria companhia...
Depois da saída de um tabuleiro de padrões geométricos lineares de preto no branco, apercebeu-se que a vida só se equilibra num contraste intermédio entre as cores extremas possíveis.
Apercebeu-se que os extremos são posições muito perigosas de assumir e manter reais.
Que antes de qualquer jogo vem a vida, e esta competição connosco é o que nos permite criar as nossas próprias regras. O produto deste jogo é nosso, e quem se conduz ao longo deste somos nós próprios.
Verdade compreendeu o mais importante: que ao querer apresentar-se como Verdade para o Mundo que a rodeava implicava ser uma mentira. Esta verdade fez ruir Verdade.
Como se um pequenino pedaço de estuque velho e frágil, (antes acreditado como uma parede sólida) ruísse sobre a Verdade e pusesse ao descoberto cada pedaço de si mais obscuro.
Cabia-lhe virar costas e saír.
Trincou a maça que tinha à sua frente, e ao observar com mais atenção o fruto brilhante apercebeu-se que possuía um pequeno buraco indicador de bicho.
"A Verdade não foi a primeira a chegar aqui"

metamorfose

Cremos (e queremos) ter asas coloridas, premiadas com padrões caleidoscópicos e únicos, longas e capazes de voar bem alto e longe, mas a verdade é que não existe borboleta que para a atingir isso não precise de um estado de metamorfose, período no qual não se sente pertencer a lado nenhum.
São momentos de sensibilidade larvar, em que a pequena pupa se esconde no 1interior da sua própria crisálida frágil.
Sentir que pusemos a nós mesmos um par de asas tão descartáveis e falsas, só para mostrar aos outros que somos capazes de voar. Para quê?
Essa luta, por mais que pareça expressa em gestos e expressões, é uma luta interior, uma busca incessante do estado seguinte. Da conclusão desta metamorfose global (de espírito).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Desafio aceite

10 coisas que não me saem da cabeça:

1- A escrita, pegar numa caneta e deixar escorrer por ela abaixo tudo aquilo que esvoaça na minha cabeça disperso e sem rumo, para uma linha condutora.
2- A música La Valse d'Amelie, sempre capaz de me fazer sorrir
3- O cheiro a terra molhada num dia de chuva
4- As minhas pantufas e o meu sofá
5- O sorriso dos meus primos pequenos
6- Trautear músicas a toda a hora
7- Sintra, a vila e a serra
8- As maluqueiras que já fiz e das quais saí sempre bem
9- Os princípos e valores que nunca me deixam
10- O convívio com amigos


Não fui muito original, mas e sem dúvida as minhas cuecas de algodão roxas, são tão confortáveis.. Sinto-me capaz de tudo, quando as tenho vestidas. Se ao menos pudesse vesti-las todos os dias..!

Deixo agora a proposta a outros blogs de amigos que gostava que participassem. Já sabem, é enumerar as 10 coisas que não vos saem da cabeça e propor a actividade a mais 10 blogs! Força, os (felizes) contemplados são:
http://13minutesofpanic.blogspot.com/
http://05h00am.blogspot.com/
http://serra-da-leba.blogspot.com/
http://aformigatemcatarro.blogspot.com/
http://thesweetestdenial.blogspot.com/
http://pelanetaloukodoido.blogspot.com/
http://bifanas-crua.blogspot.com/
http://nadaqueinteresse06.blogspot.com/
http://afantasticaterradochocolatemalefico.blogspot.com/
http://rii-and-others.blogspot.com/

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

isolar o vão da porta

há uma altura em que como a Lua
pensas que é só uma fase.
mas quando te sentes a minguar
torna-se cada vez mais mínimo e insignificante
tudo o que és
pões-te a questionar tudo (involuntariamente, porra!)
desejas que no instante seguinte
o que resta seja só uma folha em branco,
um espaço vazio
um pedaço de vácuo.
Para que lá possas colocar tudo o que te apetecer
e para que lá possas colocar-te a ti,
como quiseres.
Infelizmente não é assim.
vida e destinos e escolhas
e quando já fizeste a tua,
há um momento em que páras e vês que o caminho não era aquele.
e agora ?
agora é voltar para trás...
isolar o vão da porta, e esperar que o não entre...
quando passar, já posso sair !

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Atreve-te

"Atreve-te a julgar.
Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza.
Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções,
não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer.
Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis
mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Procura encontrar-te antes que
te agarre a voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão.
Uma paixão irrequieta que não te dê descanso
e te faça doer a respiração.
Aspira o ar, bebe-o com força, é teu,
nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo.
Canta.
Canta a água e a montana e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência
com que crescem as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos,
e cada amigo
como um astro que desponta
no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria.
A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados
e os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou.
Canta!
Se sentires medo, canta.
Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
Constrói o teu amor, vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
o que mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
nada será igual alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança.
E canta quando a esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e
porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso.
Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade."

Joaquim Pessoa, Vou-me embora de mim, Hugin, 2000.

Obrigada pai, sabias que ia precisar desta mensagem de força um dia!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

simples mente

Pulsar de jade sobre o orvalho.
As gotículas que numa lufa-lufa, se organizam sem lógica.
Como aqueles pedaços de água
que esvoaçam nos vidros
e escorregam perfeitamente desprendidos.
desorganizados, descoordenados e felizes.
Um acordar, um adormecer.
Complexidade de um movimento.
Aberto e livre,
motivado pela manhã nova.
Promessa de ciclos.
O teu argumento é circular.
Inválido.
é impossível de esconder o atrito?
Observa só as gotinhas esmeralda
que se pousam nas folhas verdes
e deixa a simplicidade invadir-te o espírito.
Sentiste?
nao fui eu.. foi a Lua. :)

concha

Uma luz que se apaga. Um silêncio. Uma estrada que ficou por preencher com passos e um passo indeciso, a meio caminho.
Questões que atravessam as entranhas até ao íntimo mais secreto e recondito.
Contradição persistente, dolorosa, frenética.
Pequenas ligações que se rompem e criam novas ramificações, sem rumo a diferentes horizontes.
Falta de uma referência, direcção.
Palavras demasiado forçadas. Gritos acurralados. Uma asa partida.
No coração vontade de voar... o vento chama, mas será que quero deixar que ele me leve? Será que é ele que me quer levar?
É uma concha fechada, vedada, tapada, escondida.
Quero abri-la, tanto. Será que encerra no seu interior uma pequena pérola brilhante?
Tenho medo que esteja vazia. Do vazio, do escuro, do fundo interior que exala tanto desconhecido aliciante e ao mesmo tempo perigoso.
Sei que tenho de fazê-lo, se não fôr eu, tal como nos feitiços o seu pequeno brilho ficará para sempre disperso, impossibitado de se tornar útil. Esse brilho está lá, ou é preciso criá-lo?

É preciso decidir, sem voltar atrás. Ou então as correntes vão levá-la cada vez mais fundo.

sábado, 2 de janeiro de 2010

resoluções de ano novo

1- manter o quarto arrumado
2- manter a cabeça arrumada
3- manter a vida arrumada

e acho que é isto.