domingo, 27 de junho de 2010

História de uma Papoila III




E assim foi, com a sua vontade de chegar ao topo, Papoila subiu com uma genica e ousadia incríveis, aquela que sentimos quando queremos alcançar um objectivo com tanta força, que nos esquecemos do medo, do perigo e do cansaço.

À medida que agarrada às pedras escarpadas, trepava a montanha com suor no rosto e os joelhos massacrados, sentiu todo o seu corpo a ser engolido por esta montanha tão alta e especial.

Assim que ultrapassou a camada de pedra, um Mundo de cor e movimento se criava em frente aos seus olhos. "Devo estar a delirar do calor. O melhor é fechar os olhos" pensou. Aquela interpretação do que lhe acontecera era inútil,pois ao tentar fechar os olhos via exactamente o mesmo, como se estes continuassem como estavam.

Um pouco assustada, mas ao mesmo tempo deliciada apercebeu-se que se encontrava numa espécie de feira popular bastante original e no meio de uma floresta onde as árvores estavam carregadas de frutos azuis e cor-de-rosa choque e cujas folhas vermelhas balouçavam no cimo de troncos amarelos. O céu tinha um tom lilás, e o Sol, ainda mais abrasador era de um verde escuro profundo. Este era suavizado por uma brisa constante e amena, que quando passava, rasgava a atmosfera de um prateado brilhante como se fossem pequenas estrelas cadentes, mas a caír na horizontal.

A fome de todo o esforço que já fizera até ali, apertava-lhe o estômago e por isso provou um daqueles frutos estranhos da árvore amarela. O sabor era fantástico: um misto de coca-cola com baba de camelo e sorvete de limão. Apesar disso, depois de provar aquele fruto, encontrava-se numa daquelas rodas gigantes que existem nas feiras populares, mas esta estava segura por raízes. Durante a viagem sentiu uma vertigem enorme e um arrepio estridente que lhe percorreu todo o corpo, como se estivesse a saltar por entre vales de grande profundidade num voo plano. Subitamente, todas as raízes que seguravam aquela diversão, desfazem-se em mil pedaços e papoila encontra-se em queda livre. Fecha os olhos com toda a força que pode e não consegue conter um grito de desespero: "AHHHHHHHHHHHH!"

O seu corpo frágil de flor de primavera encontra-se durido e dormente. Assim que se levanta do chão, olha à sua volta e encontra-se deitada no chão do seu quarto ao lado da sua cama.

Afinal a queda não tinha sido assim tão fatal. Mas aquela aventura tinha sido muito mais do que um simples sonho, conseguia senti-la vívida e natural em si.

E a partir desse dia, tornou-se uma flor ousada e atrevida, capaz de correr rumo ao desconhecido, com uma persistência e vivacidade únicas.

1 comentário:

  1. Lamber as feridas e continuar a caminhar, porque a viagem não pára e nós dela fazemos parte integrante.
    Saudade e Kandandos meus

    ResponderEliminar