terça-feira, 22 de junho de 2010

Asas

"Vê mais longe , a gaivota que voa mais alto"
palavras "oferecidas" por alguém que quer verdadeiramente ver-me a voar. A voar não pelas direcções que o vento sopra, mas com a sua firmeza e serenidade. Com a sua discrição que se ouve, mas não se vê.
Antes de iniciar o caminho é preciso escolher um bom calçado, compreender até que ponto estamos confortáveis com o que temos, mas acima de tudo ter a certeza que vamos poder ter quem nos ampare se caírmos, ou mesmo impedir-nos de caír quando subirmos uma rocha escarpada, com o vento contra nós.
"(...) ultrapassado o Tempo e o Espaço o que nos resta é o Aqui e o Agora". E o que é o aqui e o agora?
Para mim o Aqui e o Agora era o aproveitar o momento, sem complexidades, deixar-me levar, largar a rocha escarpada que subia contra o vento e deixar-me libertar ao sabor dele, deixá-lo direccionar-me para um destino desconhecido e perder o rumo, o ponto de chegada. E o de partida.
Aqui e Agora é muito mais precioso, é o tesouro que guardamos dentro de nós. O destino que traçamos e que fica mais claro para nós a cada segundo da caminhada, ainda que muitas vezes olhemos para tras, para a distância a que estamos do chão, (sem perceber que ela reflecte a altura a que já estamos) nesta dura escalada do dia-a-dia e nos apeteça largar a rocha e descansar os músculos, a cabeça, a vida.
O Aqui e Agora, são as nossas duas verdadeiras asas - as feitas de penas não nos fazem voar mais alto, ver mais longe- são elas o calçado confortável que nos faz sentir bem na caminhada mas também a bussola que nos impede de nos desorientarmos.
Há sempre pontos de encruzilhadas, em que estas duas asas, (por vezes ainda frágeis como asas de borboletas que mal são tocadas se paralizam) têm de voar segundo a intuição. Mas esta também se aperfeiçoa com o tempo.
Este é o voo que quero. Para ver céus azuis arroxeados pintados de fim de tarde e de Verão, partilhá-los com gaivotas cujos voos se fazem do planar atento junto do meu.
E durante o caminho ser capaz de olhar para as raízes que germinam em mim, não para me aprisionar mas para me mostrar as flores e frutos que me podem dar; ser capaz de sentir o cheiro da terra na qual os meus pés se enterram, sempre a sentir que por vezes há um vento quente e calmo capaz de me dar engrenagem para o caminho. E que tenho a grande árvore de copa larga e tronco antigo cujos ramos me aconchegam com as folhas fofas e frescas, e que apesar de muitos "ventos" lhe agitarem as folhas, está firme e ali e mesmo que os meus braços não a cubram toda, posso abraçá-la quando quiser.

2 comentários:

  1. Bonito e pensado texto, Margarida.
    Que esse voo se concretize em cada momento, em movimentos de segurança e da verdadeira ponderação de uma viagem bem planeada, apesar de alguns contratempos que todos temos inevitavelmente de encontrar ao longo da jornada. Mesmo sem ainda teres visto o Jonathan Livingstone Seagull (traduzido para Fernão Capelo Gaivota) parece que já o apreciaste. Desejo que consigas saborear cada momento desse filme: vi-o com a tua idade e foi para mim até hoje marcante - jornada de autonomia e de séria meditação no melhor sentido do termo. Retive a frase «o paraíso não é um lugar, mas um estado de espírito». Que cada pessoa tenha condições de construir o seu paraíso é o meu maior desejo para a família humana e para ti em especial.
    Beijinho

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  2. Linda reflexão mana. "Keep that in you is my only request". Um abraço ;)

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