quinta-feira, 24 de junho de 2010

História de uma Papoila II





"Contraditório, pensei. Protejo-me dentro de mim mesma como uma Polegarzinha e pareço-me cada vez mais longe de mim. Pequenina como uma Polegarzinha".

Dias passaram e tentou calar aquela voz que surgia permanentemente dentro de si. Tornava-se ensurdecedor.

Era preciso saír daquela cúpula onde se protegera, para olhar o Mundo e apalpá-lo, cheirá-lo, encher-se dele.

Conhecer as montanhas e os vales, em vez do seu seguro mas já conhecido caminho plano.

Um dia, Papoila acordou e decidiu-se. Pegou numa pequena mochila com tudo aquilo que lhe pareceu precisar: algum dinheiro que tinha juntado, mudas de roupa e o canivete suiço que o avô lhe tinha dado. A manhã estava calma, o céu de um azul brilhante, limpo de núvens marotas, cheia de Sol e com um vento suave com cheiro a verão e calor.

Partiu rumo a uma grande montanha que existia a alguns kilómetros da zona onde vivia. Passou campos nos quais as searas se agitavam, produzindo um sussurro agradável. Passou em poças lamacentas, por entre as quais pequenos riachos se apressavam também no seu trilho. Pensou em como gostaria de correr assim, tal como um rio.. mas depois lembrou-se que também estes se deparam com pedras afiadas, e barragens dominadoras e apagou-se esta imagem da sua cabeça.

Finalmente era capaz de ver a montanha, mas começava a ficar tarde. Instalou-se junto a uma árvore que se encostava a uma rocha alta que a abrigava do vento e lhe permitia fazer fogo sem que este se apagasse com a humidade que caía à noite. Aconchegou-se na roupa que trouxera, e comeu algum pão que trouxera. Assim que se deitou no chão de ervas macias, olhou o céu de um preto imenso e profundo, cheio de pontos brilhantes e fortes e adormeceu a dar nomes a todas aquelas estrelas, que provavelmente já o teriam, mas não se importavam de certeza de ter um novo.

A luz do Sol entrava por entre os galhos com uma força incrível e marcante. Toda a sua vivacidade acordara a pequena rapariga adormecida que pela energia que aquele sol tão brilhante lhe trouxe, levantou-se e caminhou rumo à grande montanha, e pensou para consigo " hei-de subi-la com uma tal vontade de lhe chegar ao topo que me ponho nas alturas num instante!". E assim foi, mas Papoila não imaginava que a subida que a esperava era a mais inesperada e inesquecível que alguma vez teria..

1 comentário:

  1. Junto umas palavras do José Saramago em "Deste Mundo e do Outro":

    "Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é
    que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida
    são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos
    decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o
    mais certo é termos apenas um dia para ...viver, o mais certo é deixarmos a
    porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro."

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