domingo, 8 de agosto de 2010

asas de fada



Traz-me o chá. Trá-lo bem quente. Preciso de aquecer a alma, de aromatizar essa estrada molhada da chuva, asfaltada de medo; essa tal que há tanto tempo chamam de vida.
Sento-me no piso de névoa, gelada como eu, as minhas mãos encaixam no chão frio numa ligação quase perfeita de caminhos percorridos e destinos pesados e gélidos como a pedra polida do chão.
O medo sussurra-me ao ouvido em linguagem estratégica, cada palavra planeada pormenorizadamente ao nível do mais sórdido e assustador terror psicológico.
Raízes… raízes … raízes …
Raízes que me aprisionam às origens, que não me deixam ser uma árvore crescida e que me vendam os olhos e prendem os membros e não me deixam ver o Mundo nem me deixam ver a mim.
Silêncios mecanizados e zumbidos em altifalantes que me calam, corroem a garganta e não me deixam cantar a música que eu quero, não me deixam sequer falar nem gritar de revolta, nem chorar de desespero.
Apenas queria ver o Mundo com os meus olhos. Já ficava feliz se me deixassem só espreitar para saber como é.
E assim choro cá dentro da minha alma pequenina, mas já tão pesada.
Às vezes sorrio e penso nas minhas fadas que inventam a música, a alegria e o Mundo para mim. As minhas fadas que cantam e pintam a vida com arco-íris e pozinhos que cheiram a pétalas e a folhas molhadas da chuva e dos cristais mágicos da manhã.
Mas o asfalto da estrada e os carros. E as figuras que assombram.
Choro e derreto o que sou cá dentro.
E se ao menos as fadas inventassem a liberdade para mim e ma dessem numa folha envolvida em vento … !

(ainda era no tempo da framboesa silvestre. alguém se lembra?)

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